Hospitalizado em Roma para tratamento cardíaco, Francis Ford Coppola segue como uma lenda viva do cinema

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O cineasta americano Francis Ford Coppola, de 86 anos, foi hospitalizado nesta terça-feira (5) em Roma, na Itália, para a realização de um procedimento cardíaco programado, conforme confirmaram fontes médicas e a assessoria do diretor. Coppola passou por uma ablação para tratamento de fibrilação atrial, condição diagnosticada há cerca de 30 anos. A intervenção ocorreu no Policlínico Tor Vergata e foi conduzida pelo renomado cardiologista Dr. Andrea Natale.

O diretor, que estava no país para participar do Magna Grecia Film Festival, na Calábria, e visitar possíveis locações para futuros projetos, usou as redes sociais para tranquilizar os fãs. Em uma publicação no Instagram, escreveu:

“Da Dada (como me chamam meus filhos) está bem. Aproveitei estar em Roma para atualizar o procedimento da fibrilação com seu inventor. Estou bem!”

Segundo os médicos, o procedimento foi bem-sucedido e não teve caráter de urgência. Coppola está em recuperação e deve receber alta nos próximos dias.

Em tempos em que o cinema se encontra dividido entre blockbusters formulaicos e produções autorais de nicho, olhar para a carreira de Francis Ford Coppola é lembrar que já houve um momento em que arte e indústria caminharam lado a lado. E, mais do que isso, que a visão pessoal de um artista podia, sim, se tornar parte do imaginário coletivo.

Coppola não foi apenas um diretor talentoso — ele foi, por décadas, um arquiteto da transformação narrativa e estética da sétima arte. Se hoje falamos com tanta naturalidade sobre filmes que exploram a ambiguidade moral, a psicologia dos personagens e a tensão entre poder e ética, muito se deve à força criativa que ele imprimiu em sua filmografia.

A era de ouro: obras que redefiniram o cinema

Basta citar O Poderoso Chefão (1972) e sua sequência (1974) para entender o impacto de Coppola. Ao adaptar o romance de Mario Puzo, ele não apenas criou um clássico, mas elevou o gênero de máfia a uma obra de arte. Com elegância visual, riqueza simbólica e uma abordagem profundamente humana, o diretor fez do clã Corleone um espelho distorcido — mas reconhecível — das estruturas de poder em qualquer sociedade.

Com Apocalypse Now (1979), levou o cinema de guerra a um novo patamar. Inspirado em Coração das Trevas, de Joseph Conrad, o filme mergulha na loucura da guerra como metáfora da própria condição humana. A produção caótica, os atrasos e os dramas nos bastidores não diminuem o feito: é um dos filmes mais ousados, viscerais e influentes já feitos.

The Conversation (1974), por sua vez, mostrou sua capacidade de contenção. Em um thriller silencioso, intimista, sobre paranoia e vigilância, Coppola antecipa o mundo digital que ainda viria. E o faz com precisão, elegância e inteligência narrativa.

Um artista movido pela inquietação

Ao contrário de muitos de seus contemporâneos, Coppola nunca se acomodou ao sucesso. Mesmo após a consagração, escolheu caminhos difíceis, filmes arriscados e, muitas vezes, priorizou a integridade artística em vez da bilheteria. Isso o fez cometer erros, sim — mas erros fascinantes, honestos, e muitas vezes à frente do tempo.

Dirigiu filmes românticos, adaptações literárias, musicais experimentais. Em Drácula de Bram Stoker (1992), reinventou o clássico com sensualidade e teatralidade barroca. Em Tucker (1988), fez da história de um sonhador derrotado um espelho do próprio cinema independente. Até mesmo seus fracassos, como One from the Heart (1981), demonstram uma coragem criativa rara.

O legado que permanece

Não é exagero dizer que sem Coppola, o cinema moderno seria outro. Sua influência vai muito além dos filmes que dirigiu. A fundação da American Zoetrope, sua produtora independente, deu suporte a talentos emergentes como George Lucas, e mais tarde, à sua filha Sofia Coppola, hoje uma diretora consagrada. Coppola criou espaço para o cinema autoral dentro da indústria — algo que poucos conseguiram fazer com tanta eficácia.

Mesmo aos 86 anos, ele continua inquieto. Em 2024, após duas décadas de desenvolvimento, lançou Megalopolis — um épico autofinanciado, ambicioso, ousado. O filme dividiu opiniões, mas reafirmou algo inegociável: Coppola nunca deixou de acreditar que o cinema pode (e deve) ser uma forma de expressão artística profunda, complexa e pessoal.

Um verdadeiro autor

Coppola é, acima de tudo, um autor no sentido mais completo da palavra. Seus filmes têm estilo, têm visão, têm voz. São construções densas e cuidadosamente arquitetadas, com temas recorrentes — a família, o poder, a culpa, a falência moral — e um domínio narrativo inquestionável. Ele está na mesma prateleira que nomes como Kurosawa, Fellini, Bergman e Kubrick. É um contador de histórias com ambição literária, teatral e filosófica.

Ao revisitarmos sua obra, entendemos por que tantos cineastas contemporâneos o citam como referência. E por que, mesmo com o passar do tempo, seus filmes permanecem vivos, atuais, desconcertantes. Poucos diretores conseguiram colocar tanto de si mesmos em seus trabalhos — e transformar isso em algo tão universal.

Conclusão

Francis Ford Coppola é mais do que um grande diretor. Ele é um pilar do cinema como arte. Sua trajetória, feita de glórias e riscos, de obras-primas e experimentos, é um lembrete poderoso de que o verdadeiro artista não busca apenas agradar — busca revelar. E que o cinema, em sua melhor forma, não é entretenimento descartável, mas um espelho da alma humana.

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