Trabalhadores portuários e o PL 733/2025: modernizar não pode significar precarizar

Data:

O Projeto de Lei nº 733/2025, em tramitação na Câmara dos Deputados, pretende “modernizar o setor portuário brasileiro”. A proposta altera regras de concessão, arrendamento e gestão de mão de obra nos portos — e, por trás do discurso da eficiência, traz dispositivos que podem representar um retrocesso profundo nas relações de trabalho portuário.

Em especial, o texto fragiliza o papel do OGMO – Órgão Gestor de Mão de Obra, responsável por equilibrar a relação entre operadores e trabalhadores, garantindo escalas justas, rotatividade e direitos previdenciários. Criado pela Lei dos Portos, o OGMO é mais do que um intermediário: é o pilar de um sistema que impede o retorno à informalidade e à exploração.

O PL abre brechas para que operadores portuários contratem trabalhadores diretamente, sem mediação do OGMO. Isso significa romper com o modelo tripartite — que hoje dá voz a sindicatos e ao Estado — e criar um mercado paralelo de mão de obra, onde a escolha deixa de seguir critérios técnicos e passa a obedecer apenas à conveniência econômica de quem contrata.

Ao invocar termos genéricos como “livre concorrência” e “liberdade econômica”, o projeto pode autorizar formas de contratação mais baratas, porém menos seguras e desprovidas de proteção trabalhista. O risco é transformar um trabalhador especializado — que atua em um dos ambientes mais perigosos do país — em prestador eventual, com vínculos frágeis e renda instável.

Modernizar é necessário, sim. O Brasil precisa de portos mais eficientes e competitivos. Mas modernizar não é flexibilizar direitos. É investir em capacitação, inovação, digitalização e governança. Nenhum país sério constrói produtividade sacrificando a dignidade de quem faz o trabalho acontecer.

É urgente que o Congresso abra o diálogo com os sindicatos, as autoridades portuárias e os próprios trabalhadores. Reformar o sistema sem ouvir quem vive a realidade do cais seria repetir velhos erros: legislar de cima para baixo, sem medir as consequências sociais e humanas.

O PL 733/2025 deve ser analisado com serenidade e com foco em equilíbrio. O porto é, antes de tudo, um espaço de vida, suor e segurança. O trabalhador portuário não pode ser tratado como obstáculo — ele é o coração da logística nacional.

O país precisa, sim, de portos modernos. Mas também precisa de leis humanas, que modernizem a estrutura sem enfraquecer o trabalho.

Modernizar é avançar — desde que ninguém fique para trás.

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe

Newsletter

spot_imgspot_img

Mais Lidos

Leia Mais

Arbitragem volta a prejudicar, mas Corinthians supera erros e vence o Velo Clube fora de casa

Mesmo diante de mais uma atuação questionável da arbitragem,...

Mergulhadores localizam quase 150 kg de cocaína escondidos no casco de navio no Porto de Santos

Uma operação integrada de segurança resultou na apreensão de...

Sem ajuda da arbitragem, Santos empata com o Bragantino em jogo morno

Desta vez, sem interferência da arbitragem, o Santos Futebol...

Raio atinge área de ato com apoiadores de Nikolas Ferreira em Brasília

Um raio atingiu as proximidades da Praça do Cruzeiro,...