O que é um surto dissociativo? Entenda o tipo de episódio que aliados afirmam que Bolsonaro teve

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Aliados do ex-presidente Jair Bolsonaro (PL) afirmam que ele teria passado por um “surto” emocional ao queimar a tornozeleira eletrônica com um ferro de solda e dizer que estava ouvindo “vozes vindas do equipamento”. A descrição do episódio gerou debate sobre que tipo de comportamento esse poderia representar do ponto de vista psicológico e quais são as possíveis explicações científicas para situações assim.

Especialistas consultados por instituições como Fiocruz, Organização Mundial da Saúde (OMS) e diretrizes psiquiátricas internacionais explicam que episódios desse tipo podem estar associados a três fenômenos conhecidos: surto dissociativo, delírio persecutório momentâneo ou episódio agudo de ansiedade com alteração perceptiva.

Nenhuma dessas hipóteses indica, isoladamente, uma doença psiquiátrica permanente, mas todas podem ocorrer em situações extremas de estresse.

O que é um surto dissociativo

Segundo a OMS, surtos dissociativos são episódios em que a pessoa experimenta uma alteração súbita da percepção da realidade, podendo interpretar sons, objetos ou situações comuns como ameaças.
Esses quadros podem surgir em períodos de:

  • pressão emocional extrema,
  • privação de sono,
  • sensação contínua de vigilância ou perseguição,
  • estresse acumulado.

Nesses episódios, é possível que o indivíduo atribua significado ou intenções externas a objetos que não possuem essa função, como alegar que está “ouvindo vozes” vindas de aparelhos eletrônicos.

Delírio momentâneo e estresse prolongado

Pesquisas da National Institute of Mental Health (NIMH), dos EUA, mostram que situações de forte exposição pública, desgaste emocional e sensação de ameaça podem desencadear delírios transitórios, que não configuram transtorno psicótico, mas sim uma reação extrema ao estresse.

Nesses quadros, a pessoa pode:

  • interpretar estímulos comuns como sinais hostis,
  • agir impulsivamente,
  • ter distorções perceptivas por minutos ou horas,
  • depois recuperar totalmente a clareza.

Aliados do ex-presidente afirmam que Bolsonaro estava sob enorme carga emocional e que isso explicaria a reação.

Ouvir “vozes”: o que a ciência diz

Ouvir sons inexistentes (chamadas alucinações auditivas) pode ocorrer em:

  • privação de sono,
  • ansiedade severa,
  • episódios dissociativos,
  • uso de certos medicamentos,
  • crises de pânico mais intensas.

A Fiocruz aponta que até pessoas sem histórico psiquiátrico podem vivenciar episódios breves de alteração perceptiva sob estresse extremo.

Quais são as consequências clínicas

Quando um paciente apresenta comportamento impulsivo associado à interpretação distorcida da realidade, médicos avaliam:

  • histórico recente de estresse,
  • uso de medicamentos,
  • qualidade do sono,
  • situações de pressão ou medo,
  • sinais vitais e estado cognitivo.

Nem sempre há necessidade de internação ou tratamento prolongado. Em muitos casos, o episódio cessa naturalmente quando o indivíduo volta a um ambiente seguro e recebe acompanhamento adequado.

Episódios assim indicam doença mental?

Não necessariamente.
A OMS reforça que um episódio isolado não define transtorno psiquiátrico. Para isso, é preciso:

  • recorrência,
  • prejuízo funcional,
  • duração prolongada,
  • presença de múltiplos sintomas.

O que os aliados descrevem até agora se encaixa mais no que médicos chamam de episódio reativo ao estresse.

O que dizem os especialistas sobre tratamento

As sociedades de psiquiatria recomendam:

  • avaliação clínica,
  • estabilização emocional,
  • acompanhamento psicológico,
  • redução de exposição a estímulos de estresse,
  • monitoramento de comportamento impulsivo.

Essas medidas servem para qualquer pessoa que apresente alterações perceptivas súbitas.

Contexto político e jurídico

Embora apoiadores tenham atribuído o comportamento a um surto emocional, o relatório da Secretaria de Administração Penitenciária apontou que a tornozeleira apresentava queimaduras em toda a circunferência. A violação do equipamento foi usada pelo ministro Alexandre de Moraes como fundamento para decretar a prisão preventiva.

Bolsonaro, em vídeo, admitiu ter usado um ferro quente “por curiosidade”, mas negou intenção de fuga.

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