O deputado federal Glauber Braga (PSOL-RJ) foi retirado à força da Mesa Diretora da Câmara dos Deputados por policiais legislativos nesta terça-feira (9), após ocupar a cadeira da presidência da Casa como forma de protesto. A ação, autorizada pelo presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-PB), gerou forte repercussão política e reacendeu críticas sobre tratamento desigual a parlamentares de esquerda e de direita dentro do Congresso.
A retirada ocorreu horas depois de Motta afirmar que analisaria um pedido de cassação do mandato de Glauber, acusado de agressão a um manifestante dentro das dependências da Câmara. O deputado do PSOL nega irregularidades e afirma ser alvo de perseguição política.
Quem é Glauber Braga
Glauber Braga, de 41 anos, está no Congresso Nacional desde 2011. Natural de Nova Friburgo (RJ), é formado em Direito e iniciou sua trajetória política no PSB, partido ao qual foi filiado entre 2001 e 2015. Antes de chegar ao Congresso, ocupou cargos na prefeitura de sua cidade natal.
Após migrar para o PSOL, consolidou-se como um dos parlamentares mais combativos da esquerda. Tornou-se conhecido por intervenções duras em audiências públicas, confrontos com ministros e autoridades, além de uma atuação constante contra privatizações, reformas trabalhista e da Previdência, autonomia do Banco Central e políticas de segurança pública que ampliam o poder policial.
Dentro do PSOL, integra o setor que defende uma postura mais rígida em relação a partidos de centro e direita. Em 2021, chegou a lançar uma pré-candidatura à Presidência da República, retirada posteriormente em nome da unidade da esquerda nas eleições de 2022.
Dois pesos, duas medidas
A ação contra Glauber Braga contrasta com episódios recentes protagonizados por parlamentares da direita, que ocuparam a Mesa Diretora da Câmara sem qualquer intervenção policial.
Em agosto deste ano, deputados da oposição, em protesto contra decisões do Supremo Tribunal Federal e em defesa da anistia aos condenados pelos atos golpistas de 8 de janeiro, ocuparam as mesas da Câmara e do Senado por horas — e, em alguns casos, por toda a noite.
Um dos episódios mais simbólicos foi protagonizado pela deputada Júlia Zanatta (PL-SC), que sentou-se na cadeira da presidência da Câmara segurando sua filha de quatro meses no colo. Na ocasião, a parlamentar chegou a desafiar publicamente a autoridade da Casa, questionando por que a Polícia Legislativa não era acionada contra deputados da direita.
“Ninguém foi colocar polícia legislativa na gente. Quero ver fazerem alguma coisa”, disse Zanatta em transmissão ao vivo nas redes sociais.
Outros parlamentares da oposição dormiram sob a mesa diretora, usaram correntes, esparadrapos na boca e ocuparam tribunas em atos de obstrução explícita. Apesar disso, Hugo Motta não determinou qualquer retirada forçada nem acionou a Polícia Legislativa.
Reação política
A diferença de tratamento gerou críticas de parlamentares e analistas políticos, que acusam o presidente da Câmara de agir com rigor apenas contra a esquerda. Para aliados de Glauber Braga, a retirada à força simboliza uma tentativa de intimidação e criminalização da oposição mais combativa.
Já setores da direita defenderam a ação, alegando quebra de decoro e desrespeito ao regimento interno da Casa — argumento que não foi aplicado nos protestos anteriores liderados por bolsonaristas.
O episódio expõe mais uma vez a tensão interna no Congresso e reforça a percepção de que a aplicação das regras depende menos do ato praticado e mais de quem o pratica. Enquanto deputados da direita ocuparam a Mesa Diretora sem consequências, um parlamentar de esquerda foi retirado sob escolta policial.
A crise também aprofunda o desgaste da presidência da Câmara e coloca Hugo Motta no centro de críticas por conduzir a Casa com seletividade política — “tigrão” com a esquerda e complacente com a direita.



