Em uma decisão que desafia o Supremo Tribunal Federal, ignora a Constituição e expõe o grau de submissão de setores da Câmara aos interesses do bolsonarismo, os deputados federais rejeitaram, nesta quarta-feira (10), a cassação do mandato de Carla Zambelli (PL-SP) — mesmo após condenação definitiva pelo STF e apesar de a parlamentar estar presa na Itália, cumprindo pena de 10 anos de reclusão por invasão aos sistemas do CNJ.
Foram 227 votos a favor da cassação, 170 contra e 10 abstenções. Para perder o mandato, seriam necessários 257 votos. A bancada bolsonarista, articulada e ruidosa, trabalhou para blindar a deputada, ignorando que ela está condenada criminalmente, sem direitos políticos e sem condições legais de continuar exercendo função pública.
❗ STF mandou cassar. A Câmara decidiu passar pano.
A Constituição é clara: condenação criminal transitada em julgado leva à suspensão de direitos políticos e, portanto, à impossibilidade de manter mandato parlamentar.
Mas, para proteger Zambelli, parte do plenário preferiu repetir o roteiro que ocorreu com Natan Donadon em 2013, mantendo no cargo alguém que já deveria ter sido afastado por determinação judicial.
A CCJ havia recomendado a cassação por 32 votos a 2, mas o plenário ignorou o parecer — e o STF, novamente, terá de resolver o impasse criado propositalmente pelos parlamentares.
❗ A blindagem bolsonarista à “deputada-hacker”
Zambelli foi condenada por coordenar invasão aos sistemas do CNJ, em parceria com Walter Delgatti Neto, com o objetivo de inserir documentos falsos — incluindo uma ordem de prisão fake contra Alexandre de Moraes.
Em outro processo, recebeu pena adicional por perseguir armada um apoiador de Lula em 2022.
Mesmo assim, para a bancada bolsonarista que lotou o plenário, nada disso pareceu grave o suficiente. A palavra de ordem foi proteger a “aliada fiel”, ainda que isso significasse confrontar o STF, distorcer a Constituição e transformar a Câmara em abrigo de condenados.
❗ Um recado perigoso
Ao blindar Zambelli, deputados bolsonaristas enviam uma mensagem direta:
➡️ Se for da turma, está protegido — mesmo condenado, preso e sem direitos políticos.
➡️ Para aliados, vale tudo; para adversários, punição máxima.
A decisão aprofunda a crise institucional e reforça o discurso de impunidade que marcou os últimos anos no entorno bolsonarista.


