Depois do apagão provocado pelo ciclone extratropical que atingiu São Paulo e a Região Metropolitana, o governador Tarcísio de Freitas voltou a defender uma intervenção federal na Enel, concessionária responsável pelo fornecimento de energia elétrica. Segundo ele, sem uma ação do governo federal, as falhas se repetirão e novos apagões podem ocorrer nos próximos anos.
A fala chama atenção pelo contraste político. Tarcísio construiu sua trajetória como defensor das privatizações e da redução do papel do Estado, mas agora recorre justamente à intervenção estatal para tentar resolver o colapso de um serviço privatizado. O liberal, diante do caos, passou a cobrar aquilo que costuma criticar: a mão pesada do Estado.
Em declarações públicas, o governador afirmou que o contrato da Enel é federal, regulado pelo Ministério de Minas e Energia e pela Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), e que nem o governo paulista nem a Prefeitura de São Paulo teriam poder direto para intervir. Para Tarcísio, se nada for feito, os problemas tendem a se repetir até 2028 ou além, caso a concessão siga vigente.
O que o governador evita destacar é que o modelo de concessão e a condução federal do contrato não são novidade. Registros públicos mostram que a estrutura regulatória atual da distribuição de energia — com contratos federais e fiscalização da Aneel — foi mantida e reforçada em governos anteriores, incluindo o período em que Jair Bolsonaro esteve na Presidência. Ou seja, o arranjo que hoje Tarcísio critica é fruto do mesmo campo político que ele integrou como ministro da Infraestrutura.
Na prática, o episódio escancara a contradição: quando tudo funciona no discurso, o mercado resolve; quando o sistema entra em colapso, a solução passa a ser o Estado. O apagão não derrubou apenas árvores e postes — derrubou também o dogma liberal, substituído por um pedido explícito de intervenção pública para salvar uma concessão privada que falhou diante da crise.


