Mesmo com a rede coletora de esgoto instalada “na porta”, mais de 30 mil imóveis da Baixada Santista seguem despejando dejetos de forma irregular, contribuindo para a poluição de rios, canais e praias da região. O dado escancara um problema que vai além da infraestrutura: falta de fiscalização, omissão do poder público e descaso de proprietários.
Levantamento da Sabesp aponta que 30.781 imóveis da região ainda não estão conectados à rede, apesar de o serviço estar disponível. Guarujá concentra mais de 3,2 mil casos, Santos soma 1.558, enquanto Praia Grande ultrapassa 12,7 mil imóveis irregulares.
Responsabilidade existe — mas ninguém assume
A legislação é clara: quando a rede está disponível, a ligação é obrigatória e responsabilidade do proprietário do imóvel. Ainda assim, milhares de residências seguem despejando esgoto em redes pluviais ou diretamente no meio ambiente.
A Sabesp afirma que a primeira ligação é gratuita e que moradores são notificados por meio das contas de água. O problema é que a estratégia se mostra ineficaz. No primeiro semestre de 2025, apenas 4% dos clientes notificados no estado efetivamente realizaram a conexão.
O resultado revela um gargalo evidente: avisar não basta.
Prefeituras falham na fiscalização
Se a ligação cabe ao morador, a fiscalização é dever das prefeituras — e é justamente aí que o sistema entra em colapso.
A maioria dos municípios da Baixada Santista não realiza fiscalização ativa, não aplica multas e tampouco cruza dados com a concessionária. Em Santos, a Prefeitura afirmou que sequer recebeu a lista de imóveis irregulares e precisará “oficiar a Sabesp” para obter informações. Outras administrações simplesmente não responderam.
A exceção é Mongaguá, que iniciou uma operação com teste de fumaça para identificar ligações clandestinas, prevendo multas que podem chegar a R$ 3.500 por dia. A medida evidencia que o problema não é técnico — é político e administrativo.
Obra sem conexão vira propaganda vazia
Nos últimos anos, bilhões foram investidos em saneamento por meio de programas como o Onda Limpa. A rede foi construída, inaugurada e divulgada. Mas, sem conexão obrigatória e fiscalização, o esgoto continua indo para o mesmo lugar de sempre: o meio ambiente.
Na prática, o poder público celebrou a obra, mas abandonou a etapa final, que é justamente a que garante resultado sanitário, ambiental e de saúde pública.
Enquanto isso, a Sabesp cobra a tarifa de disponibilidade de imóveis que não se ligam à rede — o que, para especialistas, cria uma situação paradoxal: o cidadão paga por um serviço que não utiliza, e o esgoto segue poluindo praias que sustentam a economia regional.
Impacto direto nas praias e no turismo
A Baixada Santista vive do turismo. Ainda assim, milhares de imóveis seguem contribuindo para a contaminação das praias, elevando riscos à saúde, aumentando interdições por contaminação e comprometendo a imagem da região.
O problema deixa claro que saneamento não é apenas obra — é gestão, fiscalização e vontade política.
Um problema conhecido, antigo e empurrado
A situação não é nova. Bairros cresceram sem saneamento, ligações irregulares se normalizaram e o poder público optou por tolerar a irregularidade para evitar desgaste político. O resultado é um passivo ambiental que agora explode à vista de todos.
Enquanto moradores seguem sem se ligar à rede, prefeituras fingem não ver, e a concessionária se limita a avisos burocráticos, o esgoto continua correndo — literalmente — para o mar.
Sem ação coordenada, o saneamento da Baixada Santista seguirá sendo um exemplo de como infraestrutura sem fiscalização não resolve problema nenhum.


