A Argentina venceu Cabo Verde por 3 a 2 na prorrogação, em Miami, e avançou às oitavas de final da Copa do Mundo. Mas quem viu o jogo sabe: Cabo Verde não saiu de campo derrotado. Saiu de cabeça erguida. A campeã do mundo não passeou — precisou de um gol contra, nos minutos finais da prorrogação, para se livrar de um estreante que a levou ao limite e mereceu, no mínimo, os pênaltis.
Cabo Verde disputa sua primeira Copa. É um arquipélago de meio milhão de habitantes, com liga nacional semiprofissional e elenco montado majoritariamente na diáspora. Diante de Messi, Julián Álvarez, Enzo e De Paul, aguentou 120 minutos e empatou o jogo duas vezes na prorrogação. Não foi sorte: foi competência e personalidade.
Duas vezes atrás, duas vezes de pé
A Argentina fez o esperado no primeiro tempo: dominou e abriu o placar com Messi, que transformou um lançamento de Lisandro Martínez em cavadinha no ângulo. Deveria ser o começo de um jogo tranquilo. Não foi.
No segundo tempo, Deroy Duarte apareceu na área e empatou. Na prorrogação, Lisandro Martínez recolocou a Argentina à frente logo no primeiro minuto — e a resposta veio de novo: Sidny Cabral, o lateral-esquerdo, soltou uma bomba de fora da área para fazer 2 a 2. Contra a campeã do mundo, os cabo-verdianos igualaram o placar duas vezes na prorrogação, sem se abater a cada revés.
O sonho só acabou num lance infeliz: aos 5 do segundo tempo do tempo extra, Messi cobrou escanteio, Cuti Romero cabeceou e a bola desviou contra em Diney Borges. Gol contra. Foi assim, e não pela superioridade argentina, que Cabo Verde caiu. Ainda deu tempo de Benchimol obrigar Dibu Martínez a salvar em cima da linha. Faltou pouco para o feito ser ainda maior.
Vozinha, Duarte e Cabral seguraram os campeões
O goleiro Vozinha, um dos personagens da Copa, defendeu o que pôde e ainda driblou Lautaro Martínez dentro da própria área, sem perder a compostura. Deroy Duarte tirou o empate do tempo normal. Sidny Cabral marcou o golaço da prorrogação. E o time inteiro defendeu com uma organização que fez a Argentina suar até o apito final.
Vale o contexto para dimensionar o tamanho da campanha: Cabo Verde não venceu um jogo na fase de grupos, mas passou com três empates — segurando o Uruguai, entre eles — e chegou aos 16 avos como o único estreante da Copa a alcançar o mata-mata. Contra a Argentina, no confronto mais desigual do papel, mostrou que a distância entre grandes e pequenos anda menor do que a tradição sugere.
Messi bate mais um recorde
Do outro lado, o registro histórico é da Argentina. Com o gol em Miami, Messi se tornou o primeiro jogador a marcar 20 gols em Copas do Mundo e o primeiro a balançar as redes em todas as fases possíveis do torneio, da estreia de grupos ao mata-mata. Aos 39 anos, praticamente em casa na cidade onde joga pelo Inter Miami, segue ampliando os próprios recordes.
Mas a Argentina venceu no talento individual e num desvio contra, não em superioridade coletiva. Deixou espaços, não matou o jogo quando pôde e foi obrigada a se segurar até o fim. O alívio no rosto dos argentinos dizia tudo sobre o susto que levaram.
O que fica
A Argentina avança e enfrenta o Egito de Mohamed Salah nas oitavas, em Atlanta, seguindo na defesa do título. Cabo Verde volta para casa sem a classificação, mas com a melhor campanha de sua história e a prova de que compete de igual para igual com os maiores. Foi eliminado sem ser batido dentro de campo — e sai desta Copa com o respeito de quem assistiu. De cabeça erguida, como deve.


