O plano de levar astronautas novamente à superfície da Lua em 2028 depende de uma operação que nunca foi realizada entre duas espaçonaves independentes: a transferência de grandes volumes de combustível criogênico em órbita. Sem essa etapa, os módulos lunares previstos para o programa Artemis não conseguem reunir, em um único lançamento, todo o propelente necessário para a viagem e o pouso.
A arquitetura atual separa a cápsula Orion, lançada pelo foguete SLS, dos módulos de pouso desenvolvidos por SpaceX e Blue Origin. Esses veículos deverão chegar à órbita terrestre com os tanques incompletos e receber oxigênio líquido combinado a metano ou hidrogênio, dependendo do projeto, antes de seguir em direção à Lua.
Relatório do Escritório do Inspetor-Geral da Nasa publicado em março de 2026 prevê mais de dez voos de caminhões-tanque Starship para abastecer um depósito orbital. A agregação do combustível começaria mais de 200 dias antes da partida da tripulação, com a meta de um lançamento a cada seis dias. O número final pode aumentar conforme as perdas por evaporação e a eficiência das transferências.
O desafio não se resume a conectar duas naves. Os propelentes só permanecem líquidos em temperaturas extremamente baixas e recebem calor mesmo dentro de tanques isolados. Na microgravidade, líquido e vapor não se separam como na Terra, o que dificulta controlar pressão, evitar ebulição e conduzir o combustível até a tubulação de transferência.
Missões anteriores já transferiram fluidos e combustíveis armazenáveis em órbita, mas a Nasa afirma que o reabastecimento criogênico entre duas espaçonaves ainda não foi demonstrado. A agência testa acopladores, sistemas de resfriamento e técnicas de gerenciamento de fluidos, enquanto a SpaceX prepara uma prova orbital entre veículos Starship sem data confirmada.
O cronograma lunar está diretamente ligado a esse avanço. A Artemis 3, prevista para 2027, deve testar sistemas de pouso em órbita baixa da Terra, e a Artemis 4 é apontada como a primeira tentativa de retorno à superfície em 2028. Qualquer atraso na demonstração de abastecimento pode se espalhar pelas etapas seguintes do programa.


