Faltava isto: um jogo em que o talento de Neymar virasse resultado, e não apenas lampejo. Em São Januário, diante de um Vasco que começou melhor e por pouco não abriu o placar, o Santos deu a resposta que a torcida esperava havia semanas. Venceu por 3 a 0, com uma atuação madura no segundo tempo e um camisa 10 decisivo do jeito que só ele sabe ser: comandando a bola parada, distribuindo assistências e transformando cada falta e escanteio em ameaça real. Foi, talvez, a atuação mais convincente do Peixe na temporada — e veio na hora certa, longe de casa, contra um rival direto e sob hostilidade da torcida adversária.
O resultado tem peso duplo. Além dos três pontos preciosos na luta para se afastar da parte de baixo da tabela, o jogo trouxe algo que andava em falta: a sensação de que este Santos, quando encaixa, tem com o que sonhar. E o motor desse encaixe atende, como quase sempre, pelo nome de Neymar.
Um primeiro tempo de sustos e traves
Nem tudo foram flores. O Vasco começou melhor, tocando a bola com tranquilidade, e teve as primeiras chegadas com Colidio e Andrés Gómez. Gabriel Brazão, mais uma vez, apareceu para segurar o Santos, com defesas importantes em Lucas Piton e Spinelli. Foi um primeiro tempo em que o time de Cuca se preocupou mais em se defender do que em atacar — mas, quando chegou, chegou com perigo.
Gabigol perdeu uma chance cara a cara logo aos 14 minutos, e Caballero carimbou o travessão nos acréscimos, após escanteio cobrado por Neymar. O 0 a 0 do intervalo não refletia o equilíbrio: o Vasco tinha o controle, o Santos tinha as melhores oportunidades. Faltava capricho — e ele apareceu na etapa final.
O show de Neymar na bola parada
O segundo tempo foi um recital do camisa 10. Não pelos dribles ou pelas arrancadas, mas pela precisão cirúrgica na bola parada, que se transformou na arma letal do Santos. Aos 22 minutos, numa jogada trabalhada, Rollheiser acionou Gabigol, que invadiu a área e bateu de canhota para abrir o placar — o gol que destravou o jogo e a confiança santista.
A partir daí, foi Neymar quem tomou conta. Aos 31, cobrou uma falta venenosa na área, Léo Jardim tirou mal de soco e Willian Arão completou para as redes. Quatro minutos depois, nova falta cobrada com força no canto, o goleiro do Vasco espalmou no pé de Luan Peres, e o zagueiro só teve o trabalho de empurrar para o gol. Três gols, três origens em cobranças de Neymar — um espetáculo de eficiência em lances ensaiados que decidiu a partida e exibiu, na prática, por que o camisa 10 ainda faz tanta diferença quando está inteiro.
O Neymar que o Santos precisa
Vale o registro, porque nas últimas semanas a cobrança sobre Neymar foi dura — e justa, diante de atuações abaixo e de episódios fora de campo. Desta vez, ele respondeu no gramado, que é onde a resposta vale. Participativo, líder, decisivo, terminou o jogo como o grande nome de São Januário, ovacionado pela própria delegação e exaltado pelos companheiros. Gabigol, no fim, resumiu o sentimento ao chamá-lo de “gênio” e revelar a torcida do elenco para que ele fique e dispute mais uma Copa.
É este o Neymar que justifica o investimento e o barulho: o que aparece nos jogos grandes, que puxa o time nos momentos de pressão e que transforma bola parada em gol. Se conseguir manter a regularidade física para repetir atuações assim, o Santos passa a ser outro time — e a conversa sobre depender demais dele ganha um contorno bem menos amargo.
O que fica
O Santos deixa São Januário com uma vitória que vale muito mais do que três pontos. Vale confiança, vale fôlego na tabela e vale a redescoberta de uma identidade ofensiva que passa pelos pés do seu camisa 10. Contra o Vasco, o time sofreu no começo, mas soube crescer, foi eficiente quando precisou e goleou com autoridade fora de casa.
Não resolve a temporada, nem apaga os tropeços recentes. Mas é o tipo de resultado que muda o humor de um vestiário e reacende a esperança de uma torcida. E, principalmente, é a prova de que, quando Neymar joga como jogou nesta noite, o Santos tem remédio para quase todos os seus males. Que venha a sequência — porque, do jeito que o calendário aperta, o Peixe vai precisar de muitas outras noites como a de São Januário.


