Não há confirmação pública de pedido direto do presidente dos Estados Unidos ao candidato brasileiro; o que existe é uma mobilização documentada da indústria automobilística americana para manter barreiras contra veículos chineses.
O alinhamento político de Flávio Bolsonaro com Donald Trump voltou a alimentar discussões sobre a política comercial que o Brasil poderá adotar em relação aos automóveis produzidos na China. Publicações nas redes sociais afirmam que um dos primeiros pedidos do presidente americano a Flávio seria a criação de novas barreiras para conter o avanço das fabricantes chinesas no mercado brasileiro.
Até o momento, porém, não foi localizada declaração pública de Trump, Flávio Bolsonaro, General Motors ou Ford confirmando um pedido direcionado ao Brasil. Também não há anúncio oficial de proposta do candidato para criar uma tributação adicional específica contra veículos chineses.
Lobby das montadoras nos Estados Unidos
O fato comprovado que ajuda a explicar a origem da discussão ocorreu nos Estados Unidos. Em setembro de 2026, entidades representantes da indústria automobilística americana pediram ao governo Trump que mantivesse políticas destinadas a impedir a entrada de veículos chineses no país.
Segundo informações publicadas pela Axios e pela Reuters, a manifestação reuniu grupos que representam empresas como GM, Ford, Toyota, Volkswagen, Hyundai, Stellantis e Tesla.
As organizações defenderam a manutenção das restrições americanas e argumentaram que montadoras chinesas apoiadas por subsídios estatais poderiam afetar a indústria instalada nos Estados Unidos. A mobilização ocorreu antes de uma reunião entre Trump e o presidente da China, Xi Jinping.
Trump afirmou em entrevista concedida em setembro que veículos chineses estavam sujeitos a uma tarifa de 150% nos Estados Unidos. Na mesma ocasião, declarou que aceitaria a instalação de fábricas chinesas no território americano caso elas produzissem localmente e contratassem trabalhadores do país.
Importados já pagam 35% no Brasil
No Brasil, os automóveis eletrificados importados já passaram por um processo de recomposição gradual do Imposto de Importação. A alíquota alcançou 35% em julho de 2026, conforme o cronograma adotado pelo governo federal e as deliberações do Comitê-Executivo de Gestão da Câmara de Comércio Exterior.
Isso significa que a afirmação de que os carros chineses ainda “serão taxados” precisa ser contextualizada: veículos importados já são tributados. Uma eventual mudança dependeria da apresentação de novas medidas, como regras de origem, cotas, investigações de defesa comercial ou exigências relacionadas à produção nacional.
Até agora, nenhuma dessas medidas foi anunciada oficialmente por Flávio Bolsonaro para atingir especificamente as marcas chinesas.
Participação da China cresce no mercado brasileiro
Dados divulgados pela Anfavea mostram que 280,6 mil veículos importados foram emplacados no primeiro semestre de 2026. Desse total, aproximadamente metade veio da China. O volume de automóveis chineses enviados ao Brasil passou de 70 mil para 140 mil unidades em um ano.
Parte das fabricantes chinesas também iniciou ou anunciou operações industriais no Brasil. Por isso, qualquer eventual medida precisaria distinguir os automóveis trazidos prontos do exterior daqueles produzidos ou montados em território nacional.
A China permanece como o maior parceiro comercial do Brasil. Alterações tarifárias ou restrições específicas passariam pela estrutura brasileira de comércio exterior e teriam de observar os compromissos assumidos pelo país no Mercosul e em organismos internacionais.
O que está confirmado
Há, portanto, três elementos documentados: a aproximação política entre Flávio Bolsonaro e Trump; a pressão exercida pela indústria automobilística americana contra a expansão chinesa nos Estados Unidos; e o crescimento das marcas chinesas no mercado brasileiro.
Não está confirmado, entretanto, que Trump tenha solicitado a Flávio Bolsonaro uma nova taxação ou que o candidato tenha assumido compromisso de adotar essa medida. Até que exista declaração oficial ou documento sobre o tema, a possibilidade deve ser apresentada como hipótese política, e não como decisão já tomada.


