O direcionamento de emendas parlamentares ganhou peso decisivo no desempenho eleitoral de deputados federais. Levantamento publicado pelo jornal O Globo mostra uma forte relação entre os municípios que mais receberam recursos e aqueles nos quais os parlamentares alcançaram suas melhores votações proporcionais.
De cada R$ 10 destinados por deputados por meio de emendas individuais nos últimos três anos, aproximadamente R$ 7 foram enviados ao grupo de cidades onde esses mesmos políticos obtiveram seus resultados eleitorais mais expressivos.
Nos municípios em que apenas um parlamentar respondeu por mais da metade das emendas recebidas, 90% dos autores dos repasses terminaram entre os três candidatos mais votados. Em 70% dessas cidades, o deputado foi o campeão de votos.
Recursos reforçam redutos eleitorais
Os dados revelam como o Orçamento federal passou a ser utilizado para fortalecer vínculos políticos locais. Obras, equipamentos de saúde, veículos e melhorias urbanas financiadas pelas emendas ganham visibilidade nos municípios e são frequentemente apresentados durante as campanhas como resultado da atuação individual do parlamentar.
Um dos exemplos citados é o de Felipe Carreras, do PSB de Pernambuco. Em Santa Cruz do Capibaribe, onde havia recebido somente 83 votos quatro anos antes, ele passou a liderar a votação depois de destinar cerca de R$ 7,9 milhões em emendas à cidade.
O presidente da Câmara, Hugo Motta, também ampliou seu desempenho em municípios paraibanos que receberam parcelas significativas dos recursos enviados por seu gabinete. O parlamentar defende o instrumento e argumenta que deputados conhecem as necessidades de suas regiões.
Risco de atuação paroquial
Especialistas alertam que a concentração das verbas pode estimular uma atuação excessivamente voltada aos redutos eleitorais. Nesse modelo, a escolha dos investimentos corre o risco de seguir o potencial de retorno nas urnas, e não critérios nacionais de necessidade e eficiência.
As emendas somam dezenas de bilhões de reais por ano e ocupam uma parcela crescente do Orçamento. O desafio é garantir transparência, rastreabilidade e critérios técnicos para que os recursos atendam efetivamente à população, independentemente do interesse eleitoral de seus autores.


