O canal “Tropa do Flávio” e o perfil de Flávio Bolsonaro compartilharam um vídeo com a alegação de que manifestantes estariam consumindo substâncias ilícitas durante o ato realizado em apoio ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva na Avenida Paulista. As imagens, porém, já circulavam nas redes sociais no dia anterior e são atribuídas a Argentina.
O vídeo mostra uma mulher de cabelos vermelhos levando um objeto ao nariz. No material distribuído pelo canal aparece a frase “militantes usando substâncias supostamente ilícitas em manifestação”. O conteúdo foi apresentado aos seguidores como se registrasse uma cena da mobilização realizada neste domingo em São Paulo.
A cronologia desmente essa associação: o vídeo circulava antes da manifestação na Avenida Paulista. Publicações estrangeiras também atribuem a gravação da Argentina. Não existe comprovação de que a mulher tenha participado do ato favorável a Lula ou sequer estivesse no Brasil.
Também não há confirmação sobre qual substância aparece nas imagens. Mesmo assim, o conteúdo foi utilizado para associar os participantes da manifestação ao consumo de drogas.
Conteúdo enganoso alcançou milhões de pessoas
A “Tropa do Flávio” reúne aproximadamente 1,3 milhão de seguidores no WhatsApp e é utilizada para distribuir conteúdos favoráveis à candidatura de Flávio Bolsonaro. A estrutura foi divulgada pelo candidato e por aliados, entre eles o deputado federal Nikolas Ferreira.
Além da publicação no canal, Flávio compartilhou o material em seu perfil no Instagram. A participação direta do candidato ampliou o alcance de um vídeo estrangeiro, anterior à manifestação e apresentado fora de contexto.
O caso ocorre justamente quando os canais de mobilização eleitoral passaram a ocupar o centro das decisões do Tribunal Superior Eleitoral.
Kassio Nunes terá a mesma celeridade?
No domingo (11), o presidente do TSE, ministro Kassio Nunes Marques, atendeu a um pedido apresentado pela campanha de Flávio Bolsonaro e determinou a suspensão do canal “Exército do Lula”, administrado pelo deputado André Janones.
A Meta recebeu inicialmente um prazo de poucas horas para retirar o canal do ar. Nunes Marques argumentou que a remoção isolada de publicações não seria suficiente para impedir a distribuição coordenada de informações consideradas falsas.
A decisão foi posteriormente suspensa pelo corregedor-geral eleitoral, ministro Ricardo Villas Bôas Cueva, que permitiu o restabelecimento do canal.
Agora, diante da utilização de um vídeo atribuído ao Chile para atacar uma manifestação favorável a Lula, surge uma pergunta inevitável: Kassio Nunes Marques adotará contra a “Tropa do Flávio” a mesma rapidez e o mesmo rigor utilizados na decisão contra o canal adversário?
Tratamento desigual alimentaria suspeitas
A existência de canais de mobilização política não constitui, por si só, uma irregularidade eleitoral. O problema está na maneira como essas estruturas são utilizadas, especialmente quando vídeos antigos ou imagens retiradas de contexto são distribuídos a milhões de eleitores.
Se uma estrutura favorável a Lula foi alvo de uma ordem de suspensão sob a alegação de disseminação coordenada de desinformação, o mesmo critério precisa ser aplicado quando o conteúdo parte de um canal favorável a Flávio Bolsonaro.
A ausência de uma resposta equivalente poderá reforçar questionamentos sobre seletividade e tratamento desigual dentro da Justiça Eleitoral. A credibilidade do TSE depende de regras previsíveis, transparentes e aplicadas com o mesmo rigor a todas as candidaturas.
Até a publicação desta matéria, não havia sido anunciada uma decisão de Kassio Nunes Marques determinando a remoção do vídeo ou a suspensão da “Tropa do Flávio”.


