Lideranças e perfis ligados à direita bolsonarista utilizaram as redes sociais para demonstrar indignação com pichações e outros sinais de vandalismo deixados na Avenida Paulista depois de uma manifestação favorável ao presidente Luiz Inácio Lula da Silva.
Uma das publicações foi feita pelo deputado federal Nikolas Ferreira (PL-MG), que compartilhou uma fotografia da entrada da Estação Trianon-Masp pichada.
“E amanhã será o trabalhador que eles tanto dizem defender que irá limpar a sujeira, pichação e depredação que deixaram para trás”, escreveu o parlamentar.
A depredação de patrimônio público deve ser condenada independentemente da identidade política de quem a pratica. Os responsáveis precisam ser identificados e responder pelos danos causados. O que chama atenção, porém, é a indignação seletiva de uma direita que agora usa algumas pichações para atacar todo o campo progressista, mas há anos relativiza a destruição promovida por bolsonaristas em Brasília.
Em Brasília, a destruição foi muito maior
Em 8 de janeiro de 2023, apoiadores de Jair Bolsonaro invadiram e depredaram o Congresso Nacional, o Palácio do Planalto e o Supremo Tribunal Federal. Salas foram destruídas, móveis quebrados, documentos rasgados e obras de arte danificadas.
Os prejuízos cobrados pela União em ações de reparação ultrapassam R$ 56 milhões. Até janeiro de 2026, o Supremo Tribunal Federal havia responsabilizado 1.399 pessoas pelos ataques antidemocráticos.
A violência não se limitou a paredes pichadas ou lixo abandonado em uma calçada. Os invasores romperam barreiras policiais, ocuparam as sedes dos Três Poderes e tentaram criar as condições para interromper a ordem democrática depois da derrota de Jair Bolsonaro nas eleições de 2022.
Apesar da dimensão dos ataques, políticos da direita bolsonarista passaram a chamar os envolvidos de perseguidos políticos e transformaram a anistia aos condenados em uma de suas principais bandeiras.
Vandalismo só incomoda quando é do adversário?
No caso da Avenida Paulista, as imagens foram rapidamente utilizadas para responsabilizar a esquerda como um todo. Publicações tentaram apresentar as pichações como demonstração de que os manifestantes não respeitariam os trabalhadores nem o patrimônio público.
O mesmo raciocínio não foi aplicado aos ataques de Brasília. Quando os responsáveis eram apoiadores de Bolsonaro, lideranças da direita evitaram utilizar a destruição como retrato de todo o movimento conservador. Em vez disso, passaram a pedir redução das penas, perdão e anistia.
A incoerência é evidente: quando o vandalismo pode ser atribuído aos adversários, ele se transforma em argumento eleitoral e condenação coletiva. Quando bolsonaristas destroem prédios históricos, móveis, documentos e obras de arte, o discurso muda para pacificação e suposto excesso das punições.
Direita defende perdão para quem destruiu Brasília
Nikolas Ferreira está entre os políticos que defendem anistia para os condenados pelos ataques de 8 de janeiro. O parlamentar participou de manifestações em favor dos envolvidos e criticou as penas aplicadas pela Justiça.
Outros nomes importantes da direita e do bolsonarismo também apoiaram propostas destinadas a reduzir ou eliminar as punições. O movimento tenta separar os invasores das consequências materiais e políticas dos atos que praticaram.
Essa posição torna pouco convincente a súbita preocupação com o trabalhador encarregado de limpar a Estação Trianon-Masp.
Trabalhadores pagam a conta nos dois casos
A direita acerta ao afirmar que trabalhadores precisam limpar e reparar o patrimônio depredado. Isso vale para a Avenida Paulista e também valeu para o Congresso, o Planalto e o STF.
Servidores, equipes de limpeza, restauradores, eletricistas, vidraceiros e outros profissionais trabalharam para recuperar os prédios atacados em Brasília. A conta foi assumida pelo poder público e, portanto, pela população.
Não existe vandalismo aceitável. O que não é possível é condená-lo apenas quando serve para atacar um adversário e relativizá-lo quando os responsáveis pertencem ao próprio campo político.
Se a direita está realmente preocupada com o patrimônio público e com os trabalhadores responsáveis por recuperá-lo, precisa explicar por que continua defendendo o perdão de quem participou de uma destruição muito maior em 8 de janeiro.


