Sem identificação, investigar como munições compradas legalmente chegaram às facções ficaria mais difícil. Candidato chamou a questão de “detalhezinho” ao ser cobrado na sabatina da Globo.
Uma munição apreendida com uma facção pode revelar mais do que seu calibre. Sua marcação pode ajudar investigadores a identificar o comprador original e a reconstruir o caminho entre a venda legal e o mercado clandestino. É essa possibilidade de rastreamento que está no centro da controvérsia sobre o projeto de armas defendido pelo senador Flávio Bolsonaro (PL).
O PL 3.723/2019, apresentado durante o governo de Jair Bolsonaro, contém dispositivo que revoga exigências legais de marcação de munições destinadas às forças de segurança e de identificação em embalagens. Na sabatina da TV Globo, Flávio foi questionado sobre o efeito dessa mudança nas investigações e tratou a marcação na cápsula como um “detalhezinho”. Não explicou de que modo retirar essa exigência ajudaria a combater o crime organizado.
O risco não é abstrato. Um levantamento do Instituto Sou da Paz examinou 31.699 cartuchos vinculados ao Comando Vermelho, apreendidos em 29 casos entre 2018 e 2025. Entre as munições originais analisadas, 40,9% eram de fabricação brasileira. Dentro desse grupo nacional, 51,9% tinham códigos que apontavam uma compra original por instituições militares ou de segurança pública. Os números se referem aos casos estudados, não a todas as munições da facção.
Esses códigos não dizem, sozinhos, quem desviou o material. Eles oferecem uma pista para investigar quando e onde munições que estavam no circuito legal saíram do controle de seus compradores. Suprimir a exigência de marcação pode enfraquecer essa investigação. O Comando Vermelho — e outras organizações que obtêm munições por desvio, como pode ocorrer com o PCC — teriam menos risco de ver suas rotas de abastecimento identificadas por esse caminho.
Isso não significa que o projeto autorize a compra de munição por criminosos, nem que haja prova de que Flávio pretenda favorecer facções. Significa que uma proposta apresentada como parte de uma política de segurança pode retirar uma ferramenta usada justamente para investigar o abastecimento do crime. Antes de chamar essa ferramenta de detalhe, o candidato precisa responder à pergunta central: quem ganha quando fica mais difícil rastrear uma munição desviada?


