A alegria das crianças brincando o carnaval enche os olhos e cria memórias afetivas. Mas, por trás da folia, especialistas alertam para um cenário preocupante: o período também registra aumento significativo de violações de direitos contra crianças e adolescentes.
Presidente da organização social internacional ChildFund Brasil e pesquisador em políticas públicas para infância e adolescência, Maurício Cunha afirma que o carnaval é uma época de maior vulnerabilidade para o público infantojuvenil.
Em entrevista à Agência Brasil, ele destacou que os riscos estão tanto nas ruas quanto no ambiente digital. Cunha recomenda que famílias evitem publicar fotos e vídeos de crianças nas redes sociais e reforça a importância de denunciar qualquer suspeita de violência.
O especialista participa nesta quinta-feira (12), às 10h, de audiência pública na Comissão de Direitos Humanos do Senado, que discutirá os riscos enfrentados por crianças e adolescentes durante o carnaval, como adultização, erotização precoce, desaparecimentos, trabalho infantil e exploração sexual.
Mais de 26 mil denúncias no carnaval
Dados do Disque 100, do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, apontam que mais de 26 mil denúncias de violações contra crianças e adolescentes foram registradas durante o carnaval de 2024 — um aumento de 38% em relação ao ano anterior.
“Quase 40% de todas as violações registradas no período se referiam à violência contra a criança. É um dado alarmante”, destacou Cunha.
Segundo ele, o aumento da circulação de pessoas, eventos de massa e grandes aglomerações contribuem para o crescimento de casos de desaparecimento, exploração sexual e trabalho infantil.
Além disso, a chamada erotização precoce — ou adultização — também é apontada como violação de direitos, conforme previsto no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). “A criança precisa ser preservada de situações e conteúdos inadequados”, reforçou.
Riscos também estão na internet
O alerta não se limita ao ambiente físico. Pesquisa do ChildFund com mais de 8 mil adolescentes entre 13 e 18 anos revelou que 54% já sofreram algum tipo de violência sexual online.
De acordo com o levantamento, adolescentes brasileiros passam, em média, quatro horas por dia nas redes sociais — e cerca de 30% ficam mais de seis horas conectados diariamente.
Para Cunha, a superexposição digital aumenta o risco de manipulação de imagens, compartilhamento indevido e aliciamento. “O que para as famílias parece algo simples pode parar em redes fechadas e ser usado de forma criminosa”, alertou.
Como prevenir
Entre as recomendações estão:
- Evitar postar fotos, vídeos e transmissões ao vivo de crianças;
- Desativar a localização nas redes sociais;
- Utilizar ferramentas de controle parental;
- Limitar mensagens de desconhecidos;
- Revisar as configurações de privacidade dos aplicativos;
- Redobrar a atenção em locais com grande concentração de pessoas.
O especialista reforça que a proteção é responsabilidade compartilhada entre famílias, sociedade e poder público. “Há riscos no mundo offline e no online. Precisamos agir de forma preventiva e denunciar qualquer suspeita de violação”, concluiu.


