Grandiloquência em colapso: candidato da Fuvest transmuta erudição ornamental em nota zero e judicializa a própria verborragia

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A epifania vocabular de um candidato da Fuvest terminou em naufrágio retórico. Luis Henrique Etechebere Bessa, de 18 anos, viu sua dissertação ser fulminada com nota zero na segunda fase do vestibular da USP após entregar um texto marcado por uma profusão de construções grandiloquentes, citações de erudição ornamental e um léxico tão hipertrofiado quanto pouco funcional. Inconformado com o desfecho, o estudante decidiu judicializar a controvérsia, alegando que busca apenas uma elucidação formal para a aniquilação sumária de sua produção dissertativa.

A banca da Fuvest, contudo, sustentou que o problema não residiu propriamente na opulência vocabular, mas na rarefação do conteúdo efetivamente pertinente ao tema proposto. Segundo a avaliação, o texto não demonstrou compreensão suficiente da frase temática — “O perdão é um ato que pode ser condicionado ou limitado” — e acabou se convertendo em uma sucessão de enunciados pomposos, intelectualmente ornamentados, porém semanticamente erráticos. Em síntese menos delicada: sobrou afetação estilística e faltou aderência argumentativa.

Nas redes sociais, o caso rapidamente adquiriu contornos de tragicomédia filológica. Trechos da redação passaram a circular como exemplo máximo de uma escrita intoxicada por si mesma, em que o impulso de parecer profundo atropelou a necessidade elementar de dizer algo com clareza. A frase inaugural, repleta de “procela”, “grandiloquência condoreira” e “sofrer recôndito”, virou símbolo instantâneo de um tipo de prosa que parece querer impressionar antes mesmo de comunicar. O resultado foi uma enxurrada de pilhérias, memes e comentários irônicos, suficientes para levar o estudante a apagar publicações anteriores sobre o caso.

Professores de redação ouvidos sobre o episódio convergiram num ponto essencial: a redação não fracassou por ser sofisticada, mas por transformar sofisticação em caricatura. Na avaliação de especialistas, o texto empilha referenciais teóricos, autores e conceitos como quem monta uma vitrine de verniz intelectual, sem que esse aparato esteja verdadeiramente a serviço de uma tese inteligível. Em vez de raciocínio progressivo, houve uma colagem de autoridade. Em vez de argumentação, uma mise-en-scène verbal.

O caso acabou expondo uma distinção que vestibulandos às vezes preferem ignorar: escrever bem não é acionar o dicionário como bazuca. Clareza, coesão, pertinência temática e progressão de ideias seguem sendo mais valiosas do que qualquer desfile de palavras raras usado como cosmética textual. No fim, a tentativa de converter a redação em monumento de erudição produziu o efeito oposto: a banca não viu densidade, viu opacidade.

Se havia a ambição de soar como um jurista oitocentista em transe metafísico, o intento foi bem-sucedido. Se o objetivo era produzir uma dissertação argumentativa compreensível e aderente ao tema, a empreitada ruiu com notável eloquência.

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