O Brasil mantém sua pior posição no Índice de Percepção da Corrupção, ocupando a 107ª posição entre 180 países avaliados. Esse número não é apenas uma estatística num relatório internacional, é um retrato fiel do fracasso institucional que corrói o país por dentro.
É inevitável perguntar: como um país que se diz democrático, com instituições que se orgulham de sua independência, continua preso a um padrão recorrente de desvio de recursos públicos, impunidade e conivência política?
A posição de 107º lugar não surgiu por acaso. Ela é fruto de décadas de permissividade, de instituições que reagiram tardiamente ou de forma leniente a escândalos bilionários, de casos em que juízes, parlamentares e gestores públicos foram flagrados em esquemas de desvio sem punição efetiva.
Não estamos falando de falhas burocráticas isoladas.
Estamos falando de sistemas que, em muitos casos, funcionam em benefício dos próprios gestores, em vez de servir à população.
Mas corrupção não anda sozinha.
Ela anda de mãos dadas com incompetência nas gestões públicas mais sensíveis: saúde, educação, segurança, infraestrutura, e sobretudo na administração de recursos públicos essenciais.
Colocar pessoas sem capacidade técnica em cargos estratégicos é um problema recorrente no Brasil, seja por indicação política, seja por troca de favores partidários.
Isso resulta em desperdício de recursos, projetos mal executados, contratos superfaturados e metas jamais alcançadas.
Não se trata apenas de “gastos que não se materializaram”: trata-se de vidas impactadas, escolas inacabadas, hospitais lotados e estradas que deterioram.
E se a corrupção fosse apenas ineficiência ou desonestidade individual, poderíamos ainda nutrir alguma esperança de que basta punir alguns nomes para mudar o quadro.
Mas o que vemos hoje é algo mais profundo e mais perigoso: a fronteira entre corrupção e crime organizado se torna cada vez mais tênue nos três poderes.
Há anos relatórios e investigações indicam que grupos criminosos estruturados estão se infiltrando nas cadeias de decisão, não mais apenas como fornecedores ou “clientes” do poder, mas como atores influentes na política pública.
Quando um esquema financeiro ilícito se alia a um agente público para desviar recursos ou capturar regulações convenientes, não é mais simples corrupção: é captura do Estado pelo crime organizado.
E isso não é teoria conspiratória.
É realidade documentada em vários escândalos recentes que atingiram desde governos locais até instâncias federais.
O pior não é estar em 107º lugar no mundo em percepção de corrupção.
O pior é que, ano após ano, nenhum resultado diferente vem junto com esse número.
O que vimos foram apenas notas oficiais evasivas, críticas fragmentadas entre partidos, promessas de investigação, que não se materializam em punições efetivas, chefes de agências investigativas criticados por leniência e uma sensação crescente de que ninguém “lá em cima” está realmente preocupado com os efeitos da corrupção nas vidas das pessoas comuns.
Enquanto isso, o cidadão de bem há muito paga a conta, não apenas com impostos altos, mas com serviços públicos deficientes, oportunidades escassas e insegurança cotidiana.
E a frustração cresce.
Porque quando um país naturaliza a corrupção, desvia recursos como se fossem irrelevantes, trata a incompetência como algo tolerável e ainda convive com o crime organizado infiltrado nos poderes, há algo profundamente doente na própria estrutura estatal.
Subir ou descer algumas posições no ranking de percepção da corrupção não resolve nada se a raiz do problema, a cultura de impunidade institucionalizada, continuar intocada.
Se o Brasil quer mais do que relatórios e manchetes, ele precisa de punição efetiva e imediata aos corruptos, gestores técnicos em cargos estratégicos, reformas que limitem o poder de grupos econômicos e criminosos sobre decisões públicas, maior transparência e controles independentes, com participação civil e um sistema de justiça capaz de atuar com autonomia e eficiência.
Porque enquanto estivermos apenas reagindo aos escândalos, infelizmente eles continuarão a ocorrer.
E a percepção internacional apenas refletirá a realidade interna que é de
um país que ainda não resolveu o seu maior problema.


