Em meio a um país que convive com inflação persistente, filas na saúde, violência urbana e desafios fiscais, parte da direita brasileira decidiu eleger um novo inimigo público: uma campanha publicitária de chinelos. O estopim foi o comercial de Ano Novo da Havaianas, estrelado pela atriz Fernanda Torres, que acabou se transformando em pauta política, pedido de boicote e — como quase sempre acontece — meme.
No vídeo, a atriz brinca com a expressão popular “começar o ano com o pé direito” para defender a ideia de viver o Ano Novo “com os dois pés”, com intensidade, entrega e movimento. Nada além de uma metáfora publicitária comum, alinhada ao tom descontraído que a marca usa há décadas.
Mesmo assim, parlamentares e influenciadores conservadores enxergaram ali uma suposta provocação ideológica. Em vez de discutir políticas públicas, orçamento, segurança ou educação, a reação foi imediata nas redes sociais, com acusações de militância, discurso político oculto e convocações para boicote.
O deputado Nikolas Ferreira ironizou o slogan da marca ao afirmar que “nem todo mundo agora vai usar”. Já Bia Kicis declarou que, se a marca “não os quer”, eles também não querem a marca. Eduardo Pazuello foi além e classificou a campanha como “um desserviço à sociedade”, mesmo tratando-se de um anúncio comercial sem qualquer referência direta a partidos, eleições ou governos.
O resultado foi previsível: uma controvérsia artificial, inflada nas redes sociais, que rapidamente perdeu qualquer pretensão de ser levada a sério e virou piada. Usuários passaram a criar memes, montagens e comentários sarcásticos, ridicularizando o fato de um comercial de sandálias ter sido elevado à condição de “ameaça ideológica”.
A própria Alpargatas, dona da Havaianas, optou por não comentar a polêmica, assim como a assessoria da atriz. O vídeo segue circulando e acumulando milhões de visualizações — prova de que, fora da bolha política, a maior parte do público apenas entendeu o que ele sempre foi: publicidade.
O episódio expõe um traço recorrente do debate público brasileiro recente: a incapacidade de separar símbolo de realidade. Em vez de enfrentar problemas concretos, parte da direita prefere gastar energia reagindo a frases soltas, metáforas inofensivas e campanhas de marketing, como se nelas estivesse escondida alguma grande conspiração.
No fim das contas, enquanto questões estruturais seguem sem solução, a crise da vez foi… um chinelo. E, como costuma acontecer, quem levou isso mais a sério do que deveria acabou virando motivo de riso na própria arena digital que tentou dominar.


