O protagonismo das Guardas e o jogo político da segurança

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O recente anúncio do governo federal de um programa de R$ 65 milhões para as Guardas Municipais reacende um debate fundamental: estamos diante de uma mudança estrutural na segurança pública ou de uma tentativa de construção de narrativa política?

É inegável que a medida traz visibilidade para as guardas, mas também evidencia um movimento estratégico do governo para entrar em uma pauta tradicionalmente dominada pelo seu principal grupo adversário — a direita, que historicamente se apresenta como a voz mais firme da lei e da ordem.

Ao anunciar recursos e defender a ampliação das atribuições das Guardas Municipais, o governo tenta ocupar espaço no discurso da segurança pública, buscando aproximar-se de uma agenda que tem forte apelo popular. No entanto, essa aproximação parece mais simbólica do que efetiva: os recursos anunciados são limitados, e não há clareza sobre como os municípios serão integrados, financiados e tecnicamente preparados para assumir novas responsabilidades.

A PEC da Segurança Pública, em tramitação no Congresso, surge nesse contexto. Ela pode consolidar o papel das Guardas Municipais dentro do sistema nacional de segurança, mas também corre o risco de ser usada como vitrine política — um meio de projetar imagem de protagonismo federal em um campo historicamente dominado pelos estados e pelas forças policiais tradicionais.

O Brasil precisa, sim, discutir o futuro das Guardas Municipais. É hora de transformá-las em Polícias Municipais modernas, com formação sólida, protocolos unificados e real autonomia. Mas essa transformação não virá de programas emergenciais ou discursos de ocasião. Ela exige planejamento federativo, recursos permanentes e visão de Estado, não de governo.

A segurança pública não pode ser mais um terreno de disputa ideológica. Quando o tema é instrumentalizado, quem perde é a população — especialmente o cidadão que vive nas cidades, onde o crime e a sensação de insegurança são mais intensos.

As Guardas Municipais são a linha de frente entre o Estado e o cidadão. Fortalecê-las é essencial, mas isso só terá valor se feito com seriedade institucional, não como manobra para disputar protagonismo político.

O país precisa de segurança pública de resultados, e não de narrativas em disputa.

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