Proteção ou protecionismo? A proposta da deputada Rosana Valle contra bananas importadas

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A deputada federal Rosana Valle (PL-SP) defende que o Brasil impeça a importação de bananas — especialmente vindas do Equador — argumentando que regiões tradicionais de cultivo no estado de São Paulo, como Cajati e o Vale do Ribeira, seriam prejudicadas. O país produz cerca de 6,8 milhões de toneladas de banana por ano, e o setor movimenta aproximadamente R$ 13,8 bilhões, segundo dados da Embrapa. A deputada sugere que a abertura às importações colocaria essa cadeia produtiva em risco.

Porém, ao analisar os dados de comércio exterior, surgem questionamentos. As importações brasileiras de bananas “in natura” ou frescas são extremamente pequenas: em 2023, o total importado do Equador foi de apenas cerca de 37 mil dólares — uma quantidade simbólica diante da escala da produção nacional. No segmento de bananas desidratadas, o volume foi de aproximadamente 52,8 toneladas, equivalentes a 142 mil dólares em valor importado. Esses números mostram que o impacto econômico dessas importações é quase irrelevante frente à força do setor interno.

Ainda assim, Rosana Valle afirma que a decisão do governo federal de autorizar a entrada da fruta, mesmo desidratada, ameaça produtores do Vale do Ribeira, região onde a banana é uma das principais fontes de renda da agricultura familiar. O debate, contudo, levanta algumas questões:

  • Se as importações são tão pequenas, o impacto real para os produtores nacionais justificaria uma intervenção tão drástica?
  • A deputada está comparando bananas desidratadas — um produto industrializado — com a produção de bananas frescas?
  • Haveria, de fato, risco sanitário ou a medida representa apenas protecionismo político e econômico?

Cabe lembrar que o Brasil já havia restringido a entrada de bananas equatorianas por motivos fitossanitários, mas a Organização Mundial do Comércio (OMC) e a Justiça brasileira têm cobrado revisões dessas barreiras. A decisão de liberar as importações visa alinhar o país às normas internacionais de comércio, sem comprometer o controle sanitário.

Se o Brasil é o quarto maior produtor mundial de banana e o maior consumidor global, talvez o foco devesse estar em fortalecer a competitividade interna, investindo em tecnologia, logística e agregação de valor — e não em criar barreiras comerciais para um mercado que, na prática, quase não existe. A proposta de Rosana Valle pode até agradar parte do eleitorado agrícola, mas é preciso ponderar se o discurso da “proteção nacional” não esconde, na verdade, um protecionismo desnecessário e contraproducente.

Empresa Brasileira de Pesquisa Agropecuária (Embrapa). Dados sobre produção nacional de banana. Disponível em: https://www.embrapa.br/banana

CEIC Data. Agricultural Production – Bananas, Brasil, 2023. Disponível em: https://www.ceicdata.com/en/brazil/agricultural-production/agricultural-production-bananas

World Integrated Trade Solution (WITS). Dados de comércio internacional do Brasil – código 080300 (bananas frescas ou secas). Disponível em: https://wits.worldbank.org/trade/comtrade/en/country/All/year/2023/tradeflow/Exports/partner/BRA/product/080300

Tridge Intelligence. Importações brasileiras de banana desidratada, 2023. Disponível em: https://www.tridge.com/intelligences/dried-banana/BR/import

Organização Mundial do Comércio (OMC). Registros sobre notificações fitossanitárias relacionadas à importação de bananas. Disponível em: https://tradeconcerns.wto.org/en/stcs/details?domainId=SPS&imsId=423

VEJA. “Deputada do PL quer impedir que Brasil compre bananas do exterior”. Publicado em 20 de outubro de 2025. Disponível em: https://veja.abril.com.br/economia/deputada-do-pl-quer-impedir-que-brasil-compre-bananas-do-exterior

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