Quase 85% das emendas “ressuscitadas” pelo Congresso vêm do antigo orçamento secreto

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Dados do Tesouro Nacional mostram que quase 85% das emendas recuperadas pelo Congresso Nacional nesta semana têm origem no chamado orçamento secreto, mecanismo criado durante o governo de Jair Bolsonaro e considerado inconstitucional pelo Supremo Tribunal Federal (STF) em 2022.

Ao todo, o projeto aprovado pelos parlamentares recupera R$ 2,97 bilhões em emendas de anos anteriores que haviam sido empenhadas, classificadas como restos a pagar, mas posteriormente canceladas pelo governo federal. Desse total, R$ 2,5 bilhões correspondem às chamadas emendas de relator, núcleo central do orçamento secreto.

O texto ainda depende de sanção do presidente Luiz Inácio Lula da Silva para entrar em vigor.

De onde vem o dinheiro recuperado

Além das emendas de relator, o projeto prevê:

  • R$ 254 milhões em emendas individuais, identificadas nominalmente por parlamentar
  • R$ 136 milhões em emendas de bancada
  • R$ 85 milhões em emendas de comissão

Outros R$ 210 milhões, referentes a emendas anteriores a 2019, permanecem cancelados. No total, o volume de emendas originalmente canceladas soma R$ 3,2 bilhões.

Concentração nos anos do governo Bolsonaro

Quase a totalidade das emendas de relator resgatadas é dos anos 2020 e 2021, período de maior uso do orçamento secreto:

  • R$ 1,3 bilhão de 2020
  • R$ 1,1 bilhão de 2021
  • R$ 39,7 milhões de 2022

Apesar de indicar a origem dos recursos, o Tesouro Nacional não detalha quem são os autores das emendas nem os destinos finais do dinheiro, mantendo a falta de transparência que marcou o modelo.

Ministérios mais beneficiados

Entre as emendas de relator recuperadas:

  • 50,6% (R$ 1,26 bilhão) vão para o Ministério da Integração e do Desenvolvimento Regional, responsável pela Codevasf, uma das principais beneficiárias do orçamento secreto
  • R$ 555,5 milhões (22,3%) para o Ministério da Educação
  • R$ 190 milhões (7,6%) para o Ministério da Agricultura

O que foi o orçamento secreto

O orçamento secreto surgiu em 2019, quando o Congresso ampliou os poderes do relator do Orçamento para distribuir recursos a deputados e senadores sem identificação pública dos autores. Nos sistemas oficiais, aparecia apenas o nome do relator, ocultando os reais beneficiários.

O modelo passou a ser questionado por falta de transparência e por funcionar como instrumento de barganha política entre o Planalto e o Congresso. Em dezembro de 2022, o STF declarou o mecanismo inconstitucional, encerrando formalmente o uso das emendas de relator.

Agora, com a recuperação bilionária de recursos desse período, o Congresso recoloca em circulação verbas que têm origem justamente no modelo que o Supremo decidiu extinguir.

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