A cena registrada sob os trilhos do Veículo Leve sobre Trilhos (VLT), no Canal 1, em Santos, escancara uma realidade cada vez mais visível nas cidades do litoral paulista: a precarização extrema das condições de moradia. Um homem foi flagrado vivendo embaixo da estrutura do modal, em plena Avenida Pinheiro Machado, uma das vias mais movimentadas do município.
Segundo moradores do bairro Campo Grande, o homem ocupava o local havia algum tempo e havia transformado o espaço público em uma moradia improvisada. Entre os trilhos e o concreto, acumulava objetos pessoais, materiais diversos e até plantas, numa tentativa evidente de criar algum senso de permanência e dignidade em um ambiente absolutamente insalubre e inseguro.
A presença constante chamou a atenção não apenas pelo improviso, mas pelo risco. Além da exposição a intempéries, o local é cercado por circulação de veículos, ruído intenso e estruturas ferroviárias, revelando o grau de vulnerabilidade a que pessoas em situação de rua estão submetidas quando não há alternativas reais de acolhimento e habitação.
Retirada sem solução definitiva
Após questionamentos feitos por moradores, a Guarda Civil Municipal (GCM) realizou uma ação no local. De acordo com a Prefeitura de Santos, o homem deixou a área de forma voluntária, mas recusou o atendimento da rede de assistência social. Os materiais acumulados sob os trilhos foram considerados inservíveis e removidos por um caminhão da limpeza pública.
A retirada dos objetos devolveu a “ordem” ao espaço urbano, mas não resolveu o problema central: a ausência de moradia. A desocupação apenas desloca a situação, sem enfrentar a raiz do drama social que se repete em viadutos, canais, praças e áreas de infraestrutura da cidade.
Morar onde não deveria existir moradia
A Secretaria de Desenvolvimento Social informou que equipes de abordagem seguem acompanhando o caso e reforçando a oferta de acolhimento. A administração municipal também destacou que a legislação impede a remoção forçada de pessoas em situação de rua, limitando a atuação do poder público à oferta de serviços, que nem sempre são aceitos.
O episódio evidencia um paradoxo urbano: enquanto grandes obras de mobilidade avançam e modernizam a paisagem da cidade, parte da população segue sem acesso ao mínimo — um teto. O fato de alguém viver sob trilhos de um sistema de transporte público não é exceção, mas sintoma de uma crise habitacional persistente, marcada pela desigualdade e pela ausência de políticas estruturais de moradia permanente.
Como acionar os serviços
A população pode acionar o telefone 153, da Guarda Civil Municipal, para atendimento de pessoas em situação de rua, serviço disponível 24 horas. Em emergências, a Polícia Militar pode ser acionada pelo 190. Manifestações também podem ser feitas à Ouvidoria Municipal pelo telefone 162 ou pelos canais oficiais da Prefeitura de Santos.


