A cena paradisíaca vendida nos cartões-postais contrasta com a realidade encontrada na areia. Um levantamento realizado na Praia do Gonzaga, em Santos, identificou 18.211 microlixos espalhados pela faixa de areia em apenas três meses. O estudo, conduzido pelo Instituto Mar Azul, escancara o nível de descaso com um dos espaços públicos mais frequentados da cidade.
Entre setembro e dezembro, os resíduos foram coletados em frente à Praça das Bandeiras e consolidados após o 4º Mutirão de Limpeza de Praia. O resultado é alarmante: plásticos lideram a sujeira (9.347 fragmentos), seguidos por bitucas de cigarro (4.103) e papéis diversos (2.337). Em outras palavras, a praia virou cinzeiro, lixeira e depósito de descartáveis.
Lixo proibido, hábito permitido
O levantamento também aponta o crescimento de canudos plásticos, tampas e pinos eppendorf — itens de plástico de pequeno porte, alguns com uso proibido por lei desde 2018. A proibição, ao que tudo indica, ficou só no papel. Na prática, a fiscalização é falha, a conscientização é insuficiente e a impunidade impera.
O diretor-presidente do Instituto Mar Azul, Hailton Santos, foi direto: o volume de resíduos é “alarmante” e revela que a mudança de comportamento ainda está longe. Não se trata de um problema pontual, mas de um padrão de abandono ambiental.
Um histórico de sujeira
Desde 2013, o projeto de monitoramento já realizou 145 mutirões de limpeza em Santos e retirou mais de 1 milhão de fragmentos de resíduos da areia, do calçadão, da Ilha Urubuqueçaba e do mar. Os números acumulados reforçam o diagnóstico: 410 mil plásticos, 396 mil bitucas, 70 mil isopor, 35 mil papéis e 33 mil metais. A cada ação, a mesma constatação: o lixo volta.
De quem é a responsabilidade?
A conta não pode ser jogada apenas no colo de voluntários e organizações ambientais. Há responsabilidade individual, de quem suja, mas também institucional: falta fiscalização contínua, campanhas educativas permanentes e punição efetiva para quem transforma a praia em lixeira. Santos se orgulha da orla urbanizada, mas convive com uma crise de civilidade ambiental.
Enquanto o discurso fala em sustentabilidade e turismo, a prática deixa microplásticos, bitucas e resíduos ilegais enterrados na areia. Sem mudança real de postura — do poder público e da população —, a imundice seguirá sendo parte do cenário. E o prejuízo, como sempre, recairá sobre o meio ambiente e a saúde coletiva.


