Bastou uma chuva mais intensa para que o abastecimento de água entrasse em colapso em sete cidades da Baixada Santista. O temporal desta segunda-feira (19) interrompeu a captação e o tratamento de água da Sabesp, deixando moradores de Bertioga, Guarujá, Peruíbe, Itanhaém, Mongaguá, Praia Grande e São Vicente (área continental) sujeitos à falta d’água.
Segundo a própria companhia, a chuva provocou a entrada de terra, folhas e resíduos no sistema de captação, obrigando a interrupção do tratamento para “garantir a qualidade da água”. O problema, porém, expõe algo mais profundo: um sistema frágil, pouco resiliente e incapaz de lidar com eventos previsíveis, como chuvas de verão.
Em Itanhaém, onde o acumulado chegou a 176 mm em apenas 24 horas, a situação foi ainda mais grave. Peruíbe registrou 171 mm, números elevados, mas absolutamente esperados para a estação. Ainda assim, o sistema falhou.
A Sabesp informou que o abastecimento está sendo restabelecido “de forma gradual”. Em Guarujá e Vicente de Carvalho, a empresa afirma que a situação foi normalizada, enquanto nas demais cidades a população segue aguardando — sem cronograma claro, sem garantias e sem explicações convincentes.
Um problema estrutural, não climático
O episódio reforça uma percepção crescente entre moradores da região: se não chove, falta água; se chove, também falta. Em períodos de estiagem, o discurso é a escassez hídrica. Em períodos de chuva, o argumento passa a ser o excesso de resíduos no sistema. Em ambos os cenários, quem paga a conta é a população.
A crise ocorre em meio ao processo de privatização da Sabesp, conduzido pelo governador Tarcísio de Freitas, que promete eficiência, modernização e investimentos. Na prática, porém, o que se vê é um serviço cada vez mais vulnerável, incapaz de responder a eventos básicos e recorrentes.
Não se trata de um fenômeno imprevisível ou excepcional. Chuvas intensas fazem parte do histórico climático da Baixada Santista. A incapacidade de manter o abastecimento nessas condições levanta questionamentos sobre planejamento, manutenção preventiva, investimentos reais em infraestrutura e prioridade ao interesse público.
Privatização resolve para quem?
Enquanto o governo estadual defende a privatização como solução para os problemas históricos do saneamento, episódios como este colocam em xeque a narrativa oficial. A promessa de eficiência não se sustenta quando o sistema entra em colapso ao menor estresse climático.
A população segue refém de um modelo que não entrega estabilidade nem segurança hídrica, e que agora caminha para ser entregue à iniciativa privada sem garantias claras de melhoria no serviço — apenas com a certeza de tarifas mais altas e menor controle social.
Até o momento, a Sabesp mantém seus canais de atendimento abertos, mas não apresentou um plano concreto para evitar que situações semelhantes se repitam. Enquanto isso, moradores seguem sem água — mais uma vez.


