Estudos da Unicamp indicam que acompanhamento nutricional precoce pode impactar diretamente na sobrevida de pacientes com câncer de cabeça e pescoço. Composição corporal é determinante.
Nos últimos anos avanço da oncologia tem mostrado que compreender câncer vai além de olhar apenas para tumor. O estado nutricional e composição corporal dos pacientes têm revelado fatores cada vez mais relevantes para prognóstico e resposta aos tratamentos especialmente quando fala-se de câncer de cabeça e pescoço. Esse cenário ganha novas evidências com publicação recente de dois trabalhos apoiados pela FAPESP conduzidos por pesquisadores do Centro de Inovação Teranóstica em Câncer sediado no Centro de Hematologia e Hemoterapia da Universidade Estadual de Campinas.
Os estudos foram publicados em revistas internacionais de nutrição e oncologia clínica investigando relação entre adiposidade (depósito de gordura) muscularidade (quantidade de massa muscular) e sobrevida em pessoas com câncer de cabeça e pescoço sendo um dos tipos de tumor mais complexos de manejar. O câncer de cabeça e pescoço engloba grupo de tumores podendo desenvolver-se em diferentes regiões como boca língua faringe laringe seios da face e glândulas salivares representando oitavo tipo de câncer mais comum no Brasil afetando majoritariamente homens acima dos 40 anos.
O paciente com câncer de cabeça e pescoço é um dos que mais ficam desnutridos. Isso acontece porque além das questões relacionadas ao tumor e tratamento em si doença afeta diretamente regiões ligadas à mastigação e deglutição dificultando ingestão de alimentos. Naturalmente esses pacientes têm perda de peso maior desnutrição mais acentuada sendo considerados de alto risco nutricional segundo pesquisadores. Embora papel da obesidade como fator de risco para desenvolvimento de diferentes cânceres já seja bem estabelecido na literatura influência do tecido adiposo depois que doença está instalada ainda é campo pouco explorado.
No câncer existe algo chamado paradoxo da obesidade. Sabemos que obesidade aumenta risco de desenvolvimento de vários tipos de tumor mas em algumas situações tecido adiposo pode atuar como fator protetor quando paciente já tem doença instalada conforme observado também no câncer de cabeça e pescoço. O primeiro estudo analisou pacientes com câncer de cabeça e pescoço localmente avançado utilizando imagens de tomografia computadorizada no nível da terceira vértebra cervical para avaliar parâmetros de composição corporal como índice total de tecido adiposo e quantidade de massa muscular.
Os resultados mostraram que pacientes com níveis mais altos de adiposidade apresentaram risco reduzido de mortalidade em comparação aos com baixos índices de gordura tendo indivíduos com mais tecido adiposo mediana de sobrevida global de quase 28 meses contra quase 14 meses entre os apresentando baixos índices sendo dobro de tempo de vida. Esse dado chama atenção ao confirmar que pacientes com maior quantidade de gordura na região cervical tinham sobrevida maior fazendo pensar na importância da terapia nutricional precoce permitindo intervir de forma mais específica aumentando sobrevida.
Os achados também mostraram que preservação da massa muscular nesses pacientes mostrou-se fator protetor independente para sobrevida global. Pacientes com maior quantidade de massa muscular sobreviveram em média quase 23 meses enquanto aqueles com baixa musculatura viveram cerca de 9 meses. O segundo estudo analisou outro grupo de pacientes com câncer de cabeça e pescoço metastático ou recorrente atendidos no Hospital de Clínicas da Unicamp reforçando relevância da composição corporal mostrando que baixa muscularidade está fortemente associada a piores desfechos clínicos.


