A Baixada Santista voltou a conviver com um cenário de forte tensão na segurança pública, com comunidades onde o patrulhamento de rotina deixou de acontecer e a presença policial passou a ocorrer apenas em operações ou em comboios de viaturas. Em cidades como Santos, Cubatão, Guarujá e São Vicente, moradores e policiais relatam que a escalada do confronto com o crime organizado tem alterado a rotina em diferentes pontos da região.
O quadro descrito é de avanço territorial do crime em áreas vulneráveis, com barricadas, tiros contra patrulhas e restrição da circulação das forças de segurança em determinadas comunidades. Entre os locais citados estão Morro São Bento, Nova Cintra e Prainha, em Santos; Vila Gilda e Vila Esperança, em Guarujá; e Vila dos Pescadores, em Cubatão. O impacto vai além da segurança e atinge diretamente a vida de moradores, trabalhadores e comerciantes.
Os números da letalidade policial mostram o tamanho da deterioração. No primeiro trimestre de 2026, 28 pessoas morreram em decorrência de intervenção policial nas nove cidades da Baixada Santista. O total já representa 57% de todas as mortes desse tipo registradas ao longo de 2025 inteiro, quando houve 49 casos. Desde 2013, a região acumula 920 mortes provocadas por ações policiais.
A crise também atinge as forças de segurança. Nos últimos 20 anos, ao menos 44 policiais foram mortos na área do Deinter-6, que abrange as principais cidades da Baixada e municípios próximos. Só no ano passado, quatro agentes morreram em confrontos e outros quatro ficaram feridos. O ambiente é descrito por quem atua na região como de pressão constante e risco permanente.
Além da violência armada, o problema expõe uma questão estrutural. A Baixada reúne cerca de 1,867 milhão de habitantes, dos quais mais de 313 mil vivem em favelas, o equivalente a 17,3% da população regional. Em cidades como Guarujá, Cubatão e São Vicente, a proporção de moradores em áreas vulneráveis é ainda mais alta, o que ajuda a explicar por que o conflito entre polícia e facção tem impacto tão profundo sobre o cotidiano local.
Outro fator que amplia a gravidade do cenário é a ligação de comunidades da região com a logística do tráfico voltada ao Porto de Santos. Autoridades apontam que áreas pobres da Baixada vêm sendo usadas como entrepostos para a exportação de drogas, o que ajuda a entender o investimento do crime na proteção armada desses territórios. Nesse contexto, o confronto deixa de ser apenas policial e passa a envolver também disputa por rota, dinheiro e controle territorial.
O resultado é uma sensação crescente de ausência do Estado em partes da Baixada. Mesmo sem reconhecimento oficial de territórios proibidos, o que se vê é uma região em que o policiamento preventivo já não alcança todos os lugares de forma regular, reacendendo um cenário que muitos consideravam superado desde os ataques de 2006.


