Tem uma coisa que todo torcedor brasileiro precisava ter feito neste domingo: assistir a Holanda 2 a 2 Japão até o último minuto. Porque o que rolou no AT&T Stadium, em Dallas, não foi só o jogo mais eletrizante da Copa do Mundo de 2026 até agora. Foi um recado. E o recado é assustador: o grupo que vai cruzar com o do Brasil no mata-mata jogou, neste fim de semana, um futebol que está a quilômetros de distância do que a Seleção mostrou contra o Marrocos.
Quatro gols, duas viradas no placar, intensidade do apito inicial ao acréscimo. A Holanda dominou taticamente, abriu o placar com Van Dijk, voltou a ficar na frente com um golaço de Summerville que lembrou os tempos de Robben — corte para dentro e bola no ângulo. E mesmo assim não venceu, porque o Japão simplesmente não aceitou perder. Empatou duas vezes, a última com Kamada já aos 43 do segundo tempo, depois de pressionar como quem sabe exatamente o que quer. Foi um espetáculo de dois times maduros, organizados e com um nível técnico que dá medo. Agora compare isso com o que vimos de amarelo um dia antes.
A Holanda que o Brasil pode pegar é uma máquina
Vamos ser diretos. A Laranja Mecânica de Ronald Koeman não perde uma partida de Copa do Mundo dentro do tempo regulamentar desde a final de 2010 — são doze jogos de invencibilidade. Doze. Esse é o tamanho da casa que pode aparecer no caminho do Brasil.
E o mais preocupante nem é a estatística. É a estrutura. A Holanda tem Van Dijk comandando uma defesa que quase não dá brecha, De Jong ditando o ritmo no meio, Gakpo e Summerville rasgando pelos lados, e um banco que faz inveja: entraram Memphis Depay, Brobbey, Koopmeiners, Aké, Timber. Quando o titular cansa, entra outro titular. É profundidade de elenco de candidato a título. O Brasil, contra o Marrocos, usou as cinco substituições e ainda assim não conseguiu transformar o jogo. Não é o mesmo patamar. Não está nem perto.
O Japão não é mais zebra — é ameaça real
E se alguém achar que o problema é só a Holanda, o Japão fez questão de avisar que também chegou para incomodar os grandes. A seleção de Hajime Moriyasu disputa sua oitava Copa seguida, foi algoz do Brasil no ciclo passado e, neste domingo, provou que evoluiu de novo.
Os Samurais Azuis levaram dois gols de uma das melhores seleções da Europa e responderam às duas. Não com sorte — com pressão organizada, posse de bola no campo de ataque, finalizações de Kubo, Nakamura, Sugawara. É um time que não se desorganiza quando sofre gol, que tem plano, que tem coletivo. Exatamente aquilo que o Brasil não teve quando o Marrocos abriu o placar e a Seleção se perdeu em campo por vários minutos sem saber como reagir.
O Japão de 2026 não é mais aquela equipe simpática que torce para dar tudo certo. É um time que entra em campo achando que pode ganhar de qualquer um. E geralmente quem entra assim, ganha de alguém.
A conta que ninguém quer fazer
Aqui está a parte desconfortável. O Brasil estreou dependendo de um lampejo individual de Vinicius Júnior para não perder para o Marrocos. Foi um time que errou demais na saída de bola, teve o meio-campo atropelado e precisou de um gênio para salvar um ponto. Coletivamente, foi pobre.
Um dia depois, do outro lado do chaveamento, Holanda e Japão entregaram 90 minutos de futebol de altíssimo nível — futebol de ideia, de intensidade, de repertório. E é justamente desse lado que vai sair um adversário do Brasil no mata-mata.
A matemática é cruel: a Seleção pode até passar de fase tropeçando, resolvendo no talento contra adversários mais frágeis como o Haiti. Mas mata-mata de Copa não perdoa. Quando o Brasil cruzar com quem saiu desse Grupo F, não vai ter Vini tirando coelho da cartola que segure um time que joga como bloco, que tem banco, que tem maturidade tática. Pelo que as duas seleções mostraram em Dallas, a verdade dói: hoje, o Brasil está anos-luz desse futebol.
Ainda dá tempo de evoluir. Ancelotti tem alguns jogos e alguns treinos para transformar um amontoado de individualidades em uma equipe de verdade. Mas o relógio está correndo, e o recado de domingo foi alto e claro. O melhor jogo da Copa até agora não teve o Brasil em campo. Teve o futuro do Brasil escrito nas entrelinhas — e ele liga o alerta vermelho.


