A Inglaterra está nas oitavas de final da Copa do Mundo de 2026, mas que ninguém se engane com a frieza do 2 a 1 sobre a República Democrática do Congo. Em Atlanta, os Três Leões deram um susto na própria torcida, saíram atrás, esbarraram numa muralha congolesa por quase 80 minutos e só escaparam do vexame porque têm Harry Kane. O camisa 9 fez os dois gols da virada, decidiu no sufoco e salvou uma atuação que, sem ele, teria terminado como uma das maiores zebras do Mundial.
Foi a primeira vez que a Inglaterra virou uma partida de Copa do Mundo desde a final de 1966 — dado que soa glorioso, mas que, no contexto desta tarde, funciona mais como alívio do que como celebração. Porque, durante boa parte do jogo, quem esteve mais perto de fazer história foi a seleção africana.
A RD Congo quase escreveu um conto de fadas
Ninguém avisou a RD Congo que ela deveria ter medo. Logo aos seis minutos, Mbemba lançou, Cipenga dominou nas costas da defesa inglesa e bateu firme para abrir o placar e silenciar os favoritos. E não foi golpe de sorte: os congoleses jogaram com plano, bloco defensivo bem armado e coragem para atacar quando dava.
O primeiro tempo foi um festival do goleiro Lionel Mpasi, que se transformou em herói ao defender cabeçadas de Bellingham e finalizações de Kane, uma atrás da outra. E teve mais: Wissa, o artilheiro da equipe na Copa, acertou a trave numa chance incrível, e Wan-Bissaka salvou em cima da linha um chute de Rashford. Faltou pouco, muito pouco, para a RD Congo abrir dois de vantagem e empurrar a Inglaterra para um pesadelo.
Uma Inglaterra travada e sem ideias
Do lado inglês, o que se viu por mais de uma hora foi um time rico em nomes e pobre em futebol. Rashford desperdiçou boas chances, os cruzamentos saíam sem endereço e o meio-campo não conseguia furar a organização adversária. Thomas Tuchel esbravejou na beirada do campo, gesticulou, trocou meio time — colocou Saka, Eze e Gordon — e mesmo assim a bola não entrava.
Era o retrato de uma seleção que promete muito e entrega pouco há tempos em Copas. A Inglaterra tem elenco de sobra, mas segue dando a impressão de que joga amarrada, dependente de lampejos individuais em vez de um coletivo dominante. Contra a RD Congo, esse lampejo teve nome e sobrenome.
Kane, o de sempre, o decisivo
Apagado no primeiro tempo, Harry Kane fez o que os grandes centroavantes fazem: apareceu na hora exata. Primeiro, empatou de cabeça, aproveitando um cruzamento perfeito de Gordon, livrando-se da marcação de Tuanzebe. Depois, quando o jogo já cheirava a prorrogação, buscou espaço entre cinco congoleses na entrada da área, ajeitou e soltou uma bomba indefensável no ângulo. Um golaço de matador para carimbar a virada.
Com os dois gols, Kane chegou a 13 tentos em Copas do Mundo e superou nada menos que Pelé, que tinha 12. O maior artilheiro da história da seleção inglesa segue colecionando marcas — e, mais importante para Tuchel, segue sendo a diferença entre a classificação e a humilhação. A dependência é evidente, e é ao mesmo tempo a força e a fragilidade dos Três Leões.
A despedida honrosa dos Leopardos
A RD Congo sai da Copa de cabeça erguida, com a melhor campanha de sua história. Em apenas sua segunda participação em Mundiais, empatou com Portugal, conquistou a primeira vitória do país em Copas — de virada sobre o Uzbequistão — e chegou de forma inédita ao mata-mata, onde só foi parada por um dos maiores goleadores do planeta e no detalhe. Wissa, Cipenga, Mpasi e companhia devolveram ao futebol africano um orgulho que vale mais do que muitos resultados. Foi uma zebra que quase aconteceu, e que ninguém que assistiu vai esquecer tão cedo.
O recado que chega ao Brasil
E aqui mora o desdobramento que interessa diretamente ao torcedor brasileiro. Não por acaso, boa parte do Brasil torceu abertamente pela RD Congo neste jogo: com o chaveamento desenhado, a Inglaterra surge como possível adversária da Seleção nas quartas de final. Ou seja, o rival mais forte avançou — e o caminho do Brasil rumo ao hexa ficou, no papel, mais espinhoso.
Antes disso, porém, a Inglaterra terá um teste e tanto: encara o anfitrião México no domingo, no lendário Estádio Azteca, diante de uma seleção embalada e que ainda não sofreu gols na Copa. Se passar, encosta de vez na rota brasileira.
Por ora, fica a certeza de sempre: a Inglaterra avança, mas não convence. Tem o melhor centroavante do torneio para tirar coelhos da cartola e uma legião de craques que, coletivamente, ainda não decolou. Contra a RD Congo, deu certo no fim. Contra os próximos, do jeito que jogou, vai precisar de muito mais do que a genialidade solitária de Harry Kane.


