Havia duas imagens do Santos circulando nesta terça-feira. Numa delas, o time goleava a Universidad Central por 4 a 1 em Valencia, na Venezuela, encaminhando a classificação nos playoffs da Copa Sul-Americana com uma atuação madura, eficiente e sem depender de nenhum astro. Na outra, o camisa 10 mais caro da história do clube aparecia num hotel em São Paulo, empilhando fichas num torneio de pôquer e comemorando um all in com o bordão “é tudo do papai”.
As duas cenas são reais, aconteceram no mesmo dia e, juntas, escancaram uma pergunta que a torcida santista já não consegue mais evitar: o Santos precisa mesmo de Neymar?
O time jogou. E jogou bem
Comecemos pelo que importa: o futebol. Sem Neymar, sem Gabigol, sem João Schmidt, sem Willian Arão e sem Igor Vinícius, o time de Cuca foi à Venezuela e resolveu o jogo com competência. Sofreu no primeiro tempo contra uma defesa fechada, mas achou o caminho com Gabriel Bontempo aproveitando sobra na área. No segundo tempo, atropelou: Gabriel Menino, improvisado na lateral, marcou um golaço após lançamento de Oliva; Thaciano enfim desencantou; e Rony, saindo do banco, fechou a conta.
Quatro gols fora de casa, controle do jogo, jovens aparecendo — o Santos entregou justamente aquilo que não conseguiu entregar dias atrás, na derrota para o Botafogo. E entregou sem o seu jogador mais badalado. A UCV só descontou no fim, num erro de Moisés. Foi uma noite rara de alívio para um clube afundado em crise financeira, que na mesma tarde precisou anunciar o pagamento de uma das três parcelas atrasadas de direitos de imagem do elenco.
O contexto do pôquer: preservado, não fujão
É preciso ser justo com os fatos, porque eles importam. Neymar não abandonou o time para jogar cartas. Ele foi preservado pela comissão técnica, não foi relacionado, segue um cronograma individualizado de recondicionamento físico após a Copa do Mundo e treinou normalmente no CT Rei Pelé pela manhã. Só depois, com a tarde livre e sem compromisso com a delegação, foi ao BSOP Winter, torneio para convidados no Complexo WTC. Não houve indisciplina, nem furo de compromisso.
Mas há uma diferença enorme entre o que é permitido e o que é adequado. E é aí que a cena pega mal.
A questão não é a regra. É o símbolo
Neymar voltou de uma Copa do Mundo em que somou menos de 45 minutos em campo, entrou apenas em um jogo e se despediu do Mundial com um cartão amarelo por agressão e uma provocação ao goleiro adversário depois de um gol de pênalti inútil. Voltou de férias, reapresentou-se há poucos dias e ainda está em “recondicionamento” — a mesma palavra que acompanha sua carreira há três anos.
Enquanto isso, o clube que banca seu salário vive uma crise financeira aguda, atrasa direitos de imagem do elenco inteiro e briga contra o rebaixamento no Brasileirão. Nesse cenário, a imagem do camisa 10 exibindo fichas num torneio de pôquer, divulgada com estardalhaço pelo perfil oficial do evento no exato dia de um jogo internacional do seu time, é um desastre de leitura de ambiente. Não é ilegal, não é proibido, não fere contrato. Mas comunica exatamente o oposto do que um líder deveria comunicar num momento como este.
Não se cobra que um jogador em recuperação viaje à Venezuela. Cobra-se sensibilidade. Cobra-se noção de que, quando seu time está em campo e seus companheiros esperam salários, o melhor lugar para se estar não é a mesa de um cassino improvisado num hotel de luxo, com câmeras registrando cada mão vencida.
A pergunta incômoda
E chegamos ao ponto que nenhum torcedor santista queria fazer, mas que a realidade impõe: qual é, hoje, o retorno que Neymar dá ao Santos dentro de campo?
A conta é dura. Um contrato milionário num clube quebrado, para um jogador que passa mais tempo em cronogramas de recondicionamento do que em campo, que não sustenta 90 minutos, que não jogou uma Copa e que, nas últimas semanas, apareceu mais nas manchetes por um torneio de pôquer do que por qualquer atuação relevante. Enquanto isso, o time goleia sem ele, revela garotos e encontra soluções que não passam pelo camisa 10.
A reestreia dele está marcada para sábado, contra a Chapecoense, na Vila. Que venha — e que ele prove, dentro das quatro linhas, que ainda é o jogador que justifica todo o barulho. Porque, do jeito que as coisas andam, o Santos vem provando, jogo após jogo, que consegue viver sem Neymar. E essa, para um clube que apostou tudo no retorno do seu maior ídolo recente, é a constatação mais melancólica de todas.


