A Prefeitura de Guarujá vai gastar R$ 109,8 mil dos cofres públicos na compra de água mineral pelos próximos 12 meses. O contrato administrativo nº 553/2026, publicado nesta quinta-feira (27), prevê a aquisição de 240 mil unidades de água mineral para atender as necessidades da administração municipal. O detalhe que chama atenção é o momento em que a contratação ocorre: a cidade atravessa uma nova crise de abastecimento, com moradores de diferentes bairros enfrentando torneiras secas e baixa pressão.
Assinado em 29 de julho, o contrato foi firmado com a empresa Terra Nova Bebidas Ltda., por meio do Pregão Eletrônico nº 57/2026. A Prefeitura comprará 90 mil garrafas de 500 ml, ao custo unitário de R$ 0,57, totalizando R$ 51,3 mil, além de 150 mil copos de 200 ml, a R$ 0,39 cada, somando R$ 58,5 mil. Ao todo, são 240 mil unidades, destinadas a uma extensa relação de secretarias e órgãos municipais, incluindo Educação, Saúde, Obras, Assistência Social, Segurança, Gabinete do Prefeito, Finanças e Comunicação.
A contratação ganha um peso ainda maior diante da realidade vivida por moradores. Reportagens publicadas em julho e agosto registraram famílias de Vicente de Carvalho relatando dias sem abastecimento, enquanto a Prefeitura chegou a criar um comitê de crise para cobrar respostas da Sabesp.
Em 10 de agosto, moradores chegaram a relatar à imprensa períodos de até seis dias com pouca ou nenhuma água nas torneiras. E, nesta quinta-feira (27), uma nova reclamação publicada por morador de Vicente de Carvalho relata falta de água diária e intermitente há meses.
O contrato, por si só, não indica qualquer irregularidade. Água para consumo em repartições públicas, eventos, reuniões e atendimento à população pode ser uma despesa administrativa legítima. Mas o valor e o volume contratado levantam uma questão que merece ser respondida pelo poder público: em uma cidade onde parte da população precisa armazenar água, improvisar e esperar o abastecimento voltar, qual é o planejamento da Prefeitura para garantir que os próprios prédios públicos tenham água suficiente para consumo?
Também chama atenção o fato de os recursos destinados à contratação terem como origem, entre outras fontes, o Tesouro municipal e transferências e convênios federais vinculados, conforme o extrato publicado. O contrato terá vigência de 12 meses e será fiscalizado pela Secretaria Municipal de Gestão Administrativa e Inovação.
A crise de abastecimento não é responsabilidade exclusiva da Prefeitura, já que a distribuição de água é operada pela Sabesp. O próprio prefeito Farid Madi cobrou publicamente a companhia durante a crise e participou da criação de um comitê emergencial. Ainda assim, diante da dimensão do problema, a contratação de água mineral para abastecer a estrutura municipal coloca em evidência um contraste difícil de ignorar: para os moradores, água na torneira continua sendo uma reivindicação; para a máquina pública, água engarrafada já tem contrato, preço e fornecedor definidos.
Quanto será gasto
- R$ 109.800,00 — valor total do contrato
- 90 mil — garrafas de 500 ml
- R$ 51.300,00 — valor das garrafas
- 150 mil — copos de 200 ml
- R$ 58.500,00 — valor dos copos
- 240 mil unidades — quantidade total de água mineral
- 12 meses — período de vigência
O contrato foi publicado em meio a uma crise que já provocou cobranças públicas à Sabesp e reclamações de moradores em diferentes regiões de Guarujá. O cenário reforça a necessidade de transparência sobre o planejamento do município para o consumo de água em suas repartições e sobre a forma como os recursos públicos estão sendo utilizados durante o período de desabastecimento.


