Existe uma palavra que usamos quase todos os dias e que, de tanto ser associada a eleições, partidos, cargos, acordos e disputas, parece ter perdido parte de seu significado original: política.
Hoje, quando alguém diz “isso é política”, muitas vezes a frase vem carregada de desconfiança. Pensamos em campanha, articulação, troca de apoio, manutenção de poder. A palavra “político” também ganhou uma conotação frequentemente negativa.
Mas talvez o problema não esteja na política.
Talvez esteja justamente em termos reduzido uma ideia enorme à uma simples disputa por quem ocupará o poder.
A palavra “político” deriva do grego politikós: aquilo que pertence ou diz respeito à polis, à cidade, à comunidade política. Na tradição de Aristóteles, política pertence ao campo da ação prática e está relacionada à organização da comunidade, suas instituições e aquilo que seus integrantes compartilham.
Em linguagem muito mais simples:
política é a maneira como organizamos aquilo que é de todos.
E, se partirmos daí, talvez possamos recuperar não apenas uma palavra, mas uma maneira diferente de olhar para a vida pública.
Uma cidade é como uma enorme casa compartilhada
Imagine um condomínio.
Há água, energia, elevadores, segurança, garagem, áreas comuns e uma conta bancária limitada.
Cada morador possui interesses legítimos.
Um quer reformar a piscina. Outro prefere trocar o elevador. Outro quer reduzir a taxa condominial. Outro está preocupado com infiltrações na estrutura do prédio.
Não existe dinheiro suficiente para fazer tudo imediatamente.
Então alguém precisa estabelecer prioridades.
É necessário discutir, conhecer os problemas, avaliar riscos, decidir quanto gastar, executar e depois prestar contas.
Em escala muito maior, isso é política.
Só que uma cidade não possui dezenas ou centenas de moradores. Possui milhares ou milhões de pessoas, empresas, bairros, rios, escolas, hospitais, vias, áreas protegidas e interesses muitas vezes conflitantes.
É por isso que política não pode ser simplesmente “mandar”.
Política é decidir sobre aquilo que compartilhamos.
Poder é necessário. Mas não deveria ser a finalidade
Naturalmente, política envolve poder.
Alguém precisa ter autoridade para executar orçamento, estabelecer regras, fiscalizar, administrar equipes e tomar decisões.
O problema começa quando ocorre uma inversão:
o poder deixa de ser instrumento para executar uma responsabilidade e passa a ser o objetivo principal da própria atividade política.
É como confundir o volante com o destino.
Precisamos do volante para conduzir o carro. Mas ninguém deveria entrar em um automóvel apenas para conquistar o direito de segurar o volante.
Na política, o cargo deveria funcionar da mesma maneira.
Prefeito, vereador, deputado, secretário, ministro ou presidente são títulos que identificam funções e responsabilidades distintas.
Não deveriam funcionar como troféus.
A própria Constituição brasileira estabelece que todo o poder emana do povo, que o exerce diretamente ou por meio de representantes eleitos. Também determina que a Administração Pública deve obedecer aos princípios da legalidade, impessoalidade, moralidade, publicidade e eficiência.
Essa ideia constitucional é poderosa:
O representante não é proprietário do poder. Ele recebe temporariamente autoridade para exercer uma responsabilidade pública.
Quanto maior o poder recebido, maior deveria ser a obrigação de justificar decisões, apresentar resultados e responder por suas consequências.
Mas as pessoas estão percebendo a política dessa forma?
Os números sugerem que existe uma distância importante entre a ideia de representação coletiva e a maneira como parte da sociedade percebe as instituições políticas.
Em 2025, apenas 20% dos brasileiros declaravam confiança alta ou moderadamente alta nos partidos políticos. A confiança era de 41% no serviço público, 45% nos tribunais e 58% na polícia.
Outro dado é ainda mais revelador.
Segundo o Latinobarómetro de 2023, citado pela OCDE, 54,2% dos brasileiros consideravam que o país era governado em benefício de alguns grupos poderosos. Outros 40,9% entendiam que o governo atuava para o bem de todos.
Esse resultado mede percepção, não prova que cada decisão pública esteja capturada por interesses particulares.
Mas revela um problema político importante:
mais da metade dos entrevistados não percebia o interesse coletivo como predominante.
E talvez seja exatamente aí que devamos começar a reconstruir a política.
Eleição deveria ser começo, não chegada
Também damos enorme importância ao processo de conquistar o poder.
Nas eleições gerais de 2026, somente o Fundo Especial de Financiamento de Campanha possui R$ 4.961.519.777 — quase R$ 5 bilhões de recursos públicos destinados ao financiamento eleitoral.
O financiamento público possui uma função institucional prevista em lei e esse número, isoladamente, não diz se o modelo é bom ou ruim.
Mas sua dimensão permite uma pergunta interessante:
Se dedicamos quase R$ 5 bilhões apenas a um dos mecanismos de financiamento para escolher quem exercerá o poder, quanto esforço dedicamos a preparar, acompanhar e avaliar essas pessoas depois que a eleição termina?
Porque vencer uma eleição não deveria representar o ápice da atividade política.
Deveria representar justamente o momento em que a responsabilidade começa.
Eleição não é coroação.
É contratação temporária pela sociedade.
Cargo público não deveria ser prêmio
A mesma lógica vale dentro da máquina administrativa.
O caminho racional de uma organização seria:
primeiro identificar o problema, depois estabelecer o objetivo, definir a função necessária, determinar as competências exigidas e somente então escolher a pessoa adequada.
Mas sempre existe o risco de inverter essa sequência.
Primeiro escolhe-se a pessoa.
Depois procura-se um cargo.
Finalmente tenta-se descobrir o que aquela pessoa fará.
Uma prefeitura deveria funcionar mais como uma equipe profissional do que como uma distribuição de cadeiras.
Em 2023, a administração direta dos municípios brasileiros era composta por 56,2% de servidores estatutários, 7,3% de trabalhadores regidos pela CLT, 9,6% exclusivamente comissionados, 3,2% estagiários e 23,8% de pessoas sem vínculo permanente.
São vínculos juridicamente diferentes e esses números, sozinhos, não dizem se essas pessoas trabalham bem ou mal.
Mas mostram a complexidade da máquina municipal.
Uma organização com tamanha diversidade de vínculos precisa necessariamente de:
seleção, integração, definição de responsabilidades, liderança, capacitação e avaliação.
Sem isso, temos pessoas ocupando uma estrutura.
Não necessariamente uma equipe perseguindo um resultado.
Passar em concurso também não encerra o processo
Existe outra ideia que precisamos revisar: a de que a aprovação em concurso transforma automaticamente alguém em servidor preparado para compreender todo o funcionamento do Estado.
Concurso seleciona.
Depois é preciso integrar, formar e desenvolver.
O próprio Governo Federal reconheceu formalmente essa necessidade. Desde 2025, novos servidores do Executivo Federal em estágio probatório precisam participar do Programa de Desenvolvimento Inicial da Enap. O programa é obrigatório e trabalha conhecimentos de gestão, administração pública, ética, visão sistêmica e orientação para resultados para o cidadão.
A lógica é simples.
Imagine contratar um excelente engenheiro para uma grande empresa e simplesmente dizer:
“Parabéns. Sua mesa é aquela. Boa sorte.”
Sem apresentar organograma.
Sem explicar contratos.
Sem mostrar orçamento.
Sem apresentar metas.
Sem indicar responsabilidades.
Sem explicar quem decide o quê.
Provavelmente perderíamos uma parcela enorme da capacidade daquele profissional.
No serviço público não deveria ser diferente.
E a mesma exigência deveria valer, talvez com intensidade ainda maior, para quem chega para ocupar funções de liderança.
Antes de dirigir uma organização, é preciso compreendê-la.
Política pública começa pela pergunta certa
Boa política não é apenas ter boas intenções.
É compreender problemas.
Antes de construir uma solução para abastecimento de água, por exemplo, precisamos perguntar:
Quanto consumimos?
Quanto conseguimos captar?
Quanto produzimos?
Quanto perdemos?
Quanto conseguimos armazenar?
Qual é a demanda futura?
Planejamento começa pelas perguntas.
É a diferença entre administrar uma cidade por diagnóstico e administrá-la apenas por solicitações.
Governar não deveria significar ficar esperando problemas chegarem pela porta do gabinete.
Deveria significar construir instrumentos capazes de percebê-los antes.
Os próprios dados de confiança pública mostram a importância dessa lógica. Em 2025, 41% dos brasileiros avaliavam positivamente o uso de evidências pelo governo para tomar decisões; 43% tinham percepção positiva sobre sua capacidade de equilibrar interesses entre diferentes gerações; e apenas 28% sentiam que pessoas como elas tinham voz nas decisões públicas. Em 2022, esse último indicador era ainda menor: 16%.
Há melhora.
Mas também há muito espaço para aproximar decisão pública, evidência e participação.
O território não sabe quando haverá eleição
Existe algo especialmente interessante no planejamento urbano.
A natureza não conhece o calendário eleitoral.
O rio não sabe que haverá eleição daqui a dois anos.
Uma encosta não conhece partido.
Uma rede de abastecimento não aumenta sua capacidade porque determinado investimento seria conveniente politicamente.
Uma avenida não recebe mais carros porque alguém publicou um decreto.
Podemos negociar politicamente como responder aos limites da realidade.
Não podemos negociar a existência desses limites.
É por isso que planejamento territorial, saneamento, drenagem, habitação, educação, mobilidade e adaptação climática precisam sobreviver aos mandatos.
Muitos desses investimentos exigem anos.
Alguns talvez produzam seus maiores resultados quando quem iniciou o projeto já nem estiver no governo.
Essa é uma das provas mais difíceis da boa política:
fazer hoje aquilo que talvez outra pessoa inaugure amanhã.
Direito não deveria depender de conhecer alguém
Mas seria muito confortável atribuir todas as distorções aos políticos.
A política é coletiva também nos seus problemas.
Muitas pessoas defendem igualdade até o momento em que surge uma oportunidade de conseguir uma exceção para si.
Queremos filas justas.
Mas às vezes procuramos alguém para “dar uma força”.
Queremos critérios impessoais.
Mas conhecemos alguém dentro da estrutura.
Queremos acabar com privilégios.
Mas um pequeno privilégio parece menos grave quando somos nós os beneficiados.
Existe uma diferença essencial entre:
cobrar um direito
e
pedir uma vantagem.
Um estudo brasileiro sobre auditorias anticorrupção encontrou exatamente essa relação dos dois lados. Nos municípios estudados, as auditorias reduziram em 51% a distribuição de benefícios privados durante visitas de campanha. Mas também reduziram em 21% os pedidos dos próprios cidadãos por benefícios particulares e em 44% os pedidos efetivamente atendidos pelos políticos.
Esse talvez seja um dos dados mais importantes para entender o problema.
Clientelismo não depende apenas de alguém disposto a oferecer vantagem.
Também encontra espaço quando existe demanda por ela.
Boa política, portanto, exige mudança dos dois lados.
Política pública é diferente de favor
Existe evidência brasileira ainda mais interessante sobre isso.
Um estudo publicado em 2025 no Journal of Development Economics analisou os efeitos de uma reforma destinada a dificultar determinada forma de compra de votos por transferência fraudulenta de domicílio eleitoral.
Nos municípios afetados pela reforma, os pesquisadores encontraram aumento de 20% a 24% nos gastos municipais com saúde e de 10% a 20% nos gastos com educação nos anos seguintes.
Também observaram redução de 15,9% na mortalidade infantil, além de aumento de aproximadamente 3,5 a 7 escolas, 30 a 40 salas de aula, 151 a 205 professores e 900 a 1.300 matrículas, dependendo da especificação analisada.
Um estudo não permite generalizar automaticamente o resultado para todas as cidades ou eleições.
Mas ele mostra algo importante naquele contexto:
quando incentivos particularistas diminuíram, aumentou a provisão de bens públicos coletivos.
Essa é a diferença entre política do favor e política pública.
O bom representante não deveria ser aquele que consegue resolver o meu problema por fora da regra.
Deveria ajudar a construir uma regra capaz de resolver o problema de todos dentro dela.
E o eleitor?
O eleitor também precisa recuperar seu papel político.
Votar não deveria significar entregar o poder e voltar quatro anos depois.
Deveria significar:
delegar temporariamente uma responsabilidade e continuar acompanhando seu exercício.
Também significa não transformar representante em ídolo.
Apoiar quando houver mérito.
Criticar quando houver erro.
Cobrar coerência.
Acompanhar resultados.
Participar.
E, talvez mais difícil, aceitar que pensar coletivamente significa que nem sempre aquilo que é melhor para mim individualmente deve ser prioridade para todos.
Se existe uma fila justa, talvez eu precise esperar.
Se determinada área não suporta mais ocupação, talvez meu interesse particular precise encontrar um limite.
Se o orçamento é finito, talvez a obra mais importante não seja a minha rua.
Política começa quando reconhecemos que existem outras pessoas além de nós.
Talvez não precisemos de menos política
Talvez seja justamente o contrário.
Precisamos de mais política no verdadeiro sentido da palavra.
Mais capacidade de construir decisões coletivas.
Mais planejamento.
Mais dados.
Mais participação.
Mais profissionalização da administração.
Mais diálogo.
Mais continuidade.
Mais avaliação de resultados.
Mais responsabilidade.
E menos confusão entre autoridade e superioridade.
Porque quem ocupa um cargo público não recebeu autorização para ser maior que as pessoas.
Recebeu uma responsabilidade maior diante delas.
O poder deveria funcionar como uma ferramenta.
O cargo, como uma função.
A eleição, como uma delegação.
O servidor, como parte de uma estrutura profissional.
E o cidadão, como participante permanente da vida coletiva.
Talvez a pergunta mais importante da política não seja:
“Quem ficará com o poder?”
Mas sim, algo como:
“O que conseguiremos construir juntos com o poder que temporariamente colocaremos nas mãos de alguém?”
Porque governos passam.
Mandatos terminam.
Cargos mudam de ocupante.
Mas a cidade, seus problemas, seu território e sua população continuam ali.
E talvez seja exatamente por isso que recuperar a política seja tão importante.
Política não deveria ser a arte de mandar nas pessoas.
Deveria ser a responsabilidade de organizar, com elas e para elas, aquilo que pertencemos todos juntos.



