Possível taxação de carros chineses preocupa motoristas de aplicativo que avaliam apoiar Flávio

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A possibilidade de um eventual governo Flávio Bolsonaro adotar novas barreiras contra veículos chineses começa a despertar preocupação entre motoristas de aplicativo interessados em trocar o carro a combustão por modelos elétricos ou híbridos. O receio também aparece entre profissionais que manifestam apoio político ao candidato, mas temem que um alinhamento comercial com os Estados Unidos encareça justamente os automóveis que poderiam reduzir seus custos de trabalho.

Ainda não existe uma proposta oficial de Flávio Bolsonaro estabelecendo uma nova taxação, nem confirmação de que o presidente norte-americano Donald Trump tenha apresentado formalmente esse pedido. O cenário decorre da proximidade política entre os dois grupos e da postura protecionista adotada pelos Estados Unidos diante do avanço da indústria automotiva chinesa.

Para quem trabalha com transporte por aplicativo, o automóvel não é apenas um bem de consumo: é ferramenta de trabalho. O preço de compra, o financiamento, o gasto por quilômetro, a manutenção e o valor de revenda determinam quanto sobra ao motorista no fim do mês.

Economia desperta interesse pelos modelos chineses

Veículos elétricos e híbridos de fabricantes chineses ganharam espaço entre motoristas que percorrem grandes distâncias diariamente. Levantamento da Data Machine apontou que essas marcas já estavam presentes em quase uma de cada 12 corridas realizadas por aplicativos no Brasil em fevereiro de 2026.

Outro estudo, realizado pela plataforma de gestão financeira GigU com mais de 56 mil motoristas de 22 estados, indicou que a adoção de veículos elétricos pode aumentar a rentabilidade da atividade. A principal vantagem está na redução do gasto com energia em comparação com gasolina ou etanol, além da maior previsibilidade do custo operacional.

Esse cálculo ajuda a explicar por que uma eventual tarifa adicional preocupa a categoria. Caso o imposto de importação aumente, parte do custo poderá ser incorporada ao preço final dos veículos. Isso elevaria o valor da entrada, as parcelas do financiamento e o prazo necessário para que a economia de combustível compense a compra.

A taxação também poderia afetar peças, baterias e componentes importados. Mesmo modelos montados no Brasil dependem de cadeias internacionais de fornecimento, o que significa que uma medida abrangente pode produzir efeitos além dos automóveis trazidos prontos do exterior.

Apoio político não elimina preocupação econômica

Entre motoristas que declaram apoio a Flávio Bolsonaro, a possibilidade de restrições aos carros chineses cria uma divisão entre preferência eleitoral e interesse profissional. O apoio ao candidato não significa concordância automática com uma medida que possa aumentar o custo da principal ferramenta de trabalho da categoria.

Não há, até o momento, levantamento nacional que permita afirmar que a maioria dos motoristas de aplicativo apoia Flávio. O que existe é uma preocupação econômica legítima entre profissionais de diferentes posições políticas que acompanham a expansão dos veículos chineses e avaliam investir em modelos mais econômicos.

Protecionismo americano serve de precedente

Os Estados Unidos já adotaram medidas severas contra a indústria automotiva chinesa. Donald Trump iniciou, em 2018, uma ampla política de tarifas sobre produtos da China. Posteriormente, o governo de Joe Biden elevou de 25% para 100% a tarifa aplicada aos veículos elétricos chineses, além de aumentar impostos sobre baterias e outros componentes estratégicos.

Trump também defende barreiras comerciais como instrumento de proteção da produção instalada nos Estados Unidos. Esse histórico alimenta o temor de que um governo brasileiro politicamente próximo de Washington seja pressionado a dificultar a expansão de marcas chinesas no país.

Uma decisão brasileira, contudo, dependeria de regras nacionais, dos compromissos comerciais do Mercosul e de uma avaliação dos efeitos sobre a indústria, o emprego e os consumidores. Não seria uma consequência automática da vitória eleitoral de determinado candidato.

Trabalhador pode pagar a conta

Para os motoristas de aplicativo, o risco é que uma disputa geopolítica entre Estados Unidos e China termine transferida para o preço do automóvel no Brasil. Se os modelos mais econômicos ficarem mais caros, muitos profissionais poderão adiar a troca do veículo ou permanecer dependentes de gasolina e etanol.

O debate não se resume à defesa de uma montadora ou de um país. Ele envolve o direito de o trabalhador escolher o equipamento mais adequado à sua atividade, a necessidade de preservar empregos industriais e o interesse do Brasil em atrair investimentos e ampliar a produção local.

Antes de apoiar qualquer aumento tarifário, um eventual governo Flávio Bolsonaro teria de explicar quem seria efetivamente beneficiado, qual seria o impacto sobre os preços e como evitar que motoristas de aplicativo e consumidores brasileiros arquem com o custo de uma política formulada para atender a interesses externos.

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