As eleições de 2026 ampliaram a presença feminina no Congresso e nas assembleias legislativas, mas o avanço numérico veio acompanhado de um paradoxo: parte das mulheres eleitas construiu sua campanha atacando o feminismo e defendendo propostas que podem restringir direitos de outras mulheres.
A Câmara dos Deputados terá 109 parlamentares mulheres, ultrapassando pela primeira vez a marca de 20% das cadeiras. Para o Senado, foram eleitas 12 mulheres, acima do recorde anterior de oito, registrado em 2002.
Os números representam um avanço na ocupação de espaços historicamente dominados por homens. A ampliação, contudo, não significa que a nova bancada feminina atuará de forma unificada em pautas como violência de gênero, direitos reprodutivos, igualdade salarial e combate à misoginia.
EDUARDA CAMPOPIANO TRANSFORMA ANTIFEMINISMO EM BANDEIRA
Em São Paulo, Eduarda Campopiano (PL) foi eleita deputada estadual com quase 2 milhões de votos, tornando-se a parlamentar mais votada do estado. Durante a campanha, apresentou-se como “inimiga das feministas” e transformou o combate ao feminismo em uma de suas principais bandeiras.
Entre suas posições estão a oposição à legislação de combate à misoginia, o endurecimento das restrições ao aborto e críticas a políticas destinadas às mulheres trans. Campopiano também defende investigação e fechamento de clínicas que realizem abortos ilegais.
Sua eleição mostra como candidaturas femininas podem ser utilizadas para legitimar discursos contrários a reivindicações construídas por movimentos de mulheres. A presença de uma mulher na política, por si só, não garante apoio a políticas de igualdade.
CAROL DE TONI E ANA CAMPAGNOLO GANHAM FORÇA
Em Santa Catarina, Carol de Toni (PL) foi eleita senadora com mais de 2,6 milhões de votos. Em sua atuação na Câmara, ela tentou impedir o avanço de propostas relacionadas à descriminalização do aborto e se consolidou como uma das principais vozes conservadoras sobre direitos reprodutivos.
No mesmo estado, Ana Campagnolo (PL) foi reeleita deputada estadual com 387 mil votos, a maior votação da história da Assembleia Legislativa catarinense. A própria Assembleia a descreve como conservadora e antifeminista. Sua trajetória política inclui oposição a políticas de gênero nas escolas e críticas frequentes ao movimento feminista.
REPRESENTAÇÃO NÃO É SINÔNIMO DE AVANÇO
A eleição de mais mulheres continua sendo importante para romper barreiras partidárias, financeiras e culturais que dificultam sua participação. Mulheres ainda enfrentam menor acesso a recursos de campanha e taxas de sucesso inferiores às dos homens em diversos partidos.
O resultado de 2026, porém, demonstra que representação descritiva e defesa de direitos não são a mesma coisa. Uma bancada pode se tornar mais feminina e, ao mesmo tempo, fortalecer projetos que reduzam proteções ou dificultem conquistas históricas das mulheres.
O desafio da nova legislatura será avaliar não apenas quantas mulheres chegaram ao poder, mas quais políticas pretendem defender. O recorde eleitoral merece ser reconhecido, mas não deve impedir o debate sobre o conteúdo das propostas apresentadas por quem ocupará essas cadeiras.


