O uso medicinal de derivados da cannabis ganhou espaço nos consultórios e entre pacientes brasileiros, mas a produção científica ainda não oferece respostas sólidas para várias das indicações mais populares. A maior revisão já feita sobre canabinoides em transtornos mentais encontrou sinais promissores para algumas condições, ao mesmo tempo em que expôs lacunas importantes.
A análise reuniu 54 ensaios clínicos randomizados, com 2.477 participantes. Os resultados apontaram possíveis benefícios em quadros como insônia, síndrome de Tourette, transtorno do espectro autista e dependência de cannabis. Ainda assim, muitos estudos tinham amostras pequenas, duração curta e metodologias diferentes, o que limita conclusões definitivas.
Para ansiedade e depressão, dois dos motivos mais citados por pacientes que procuram esses produtos, as evidências permanecem insuficientes. Também não há base científica para tratar todos os compostos da planta como equivalentes: concentrações de canabidiol e THC, formas de administração e doses produzem efeitos distintos.
Os pesquisadores destacam que resultados promissores não significam comprovação de eficácia. Eventos adversos, como alterações cognitivas, sonolência e dificuldade de concentração, precisam ser avaliados junto com eventuais benefícios.
O crescimento do interesse clínico e comercial ocorreu em ritmo mais rápido do que os ensaios capazes de esclarecer segurança e eficácia. Até que estudos maiores e mais longos sejam concluídos, a recomendação é que prescrições sejam individualizadas, acompanhadas por profissionais e apresentadas aos pacientes sem promessas que a ciência ainda não consegue sustentar.


