Espionagem tupiniquim de alto padrão!

Data:

O agente secreto em nada tem a ver com James Bond e isto neste filme é uma delícia

O Agente Secreto não é um filme comum. Muito menos um daqueles dramas piegas que tentam disfarçar um discurso político-social com floreios. Aqui, Kleber Mendonça Filho entrega um longa tenso, denso e cheio de momentos de introspecção, exigindo atenção total do espectador para saborear cada silêncio e cada olhar.

O que vemos na tela é uma verdadeira aula de história: um conto que nos transporta aos tempos da ditadura militar, fazendo um espelho desconfortável com o presente: corrupção, desvio de conduta e a velha inclinação de certos “agentes públicos” para o lado sombrio da força. Tudo isso, claro, embalado naquele estilo provocativo que é marca registrada do diretor.

Acompanhamos a jornada arriscada de Marcelo, um homem tentando se refugiar em uma espécie de república de acolhidos, pessoas fugindo do peso brutal do regime. A ambientação é impecável: figurinos, cenários, objetos de época… tudo parece ter saído direto de um túnel do tempo. E, como só Kleber sabe fazer, há personagens cômicos colocados nos momentos exatos para aliviar ou acentuar a tensão.

Contorcendo-me para não dar spoilers, o que dá pra dizer é que a trama principal termina deixando aquele gostinho de dúvida no ar. As pontas soltas são intencionais, convidando a gente a imaginar outros desfechos. Até possíveis conexões com personagens do tempo presente mostrados no filme.

Wagner Moura é, como sempre, uma força da natureza. Ele entrega mais uma performance cheia de camadas nas diferentes fases de seu personagem, alternando vulnerabilidade e firmeza, exatamente como a direção lenta e provocativa de Kleber Mendonça quer: um clímax que se constrói na imaginação e causa uma deliciosa agonia.

Minha dica de amigo nerdalhão: descanse antes de assistir. Evite ler muitas críticas (exceto esta, claro). Vá de mente aberta e se prepare para um filme imerso no melhor da cultura brasileira: com a energia do povo nordestino, elenco afiado que nada deve a filmes de espionagem tão clichês do cinema internacional.

É espionagem, é história, é Brasil. E, de quebra, um lembrete de que certas corrupções de ontem continuam bem vivas hoje (só mais escancaradas).

DEIXE UMA RESPOSTA

Por favor digite seu comentário!
Por favor, digite seu nome aqui

Compartilhe

Newsletter

spot_imgspot_img

Mais Lidos

Leia Mais

O ciclo do ESG: uma história de conexão entre o planeta, as pessoas e as empresas

Era uma vez um planeta chamado Terra, um lugar vibrante e cheio de vida, onde florestas exuberantes, oceanos profundos e montanhas majestosas coexistiam. No entanto, a Terra não era apenas um lar para a natureza; era também o lar de bilhões de pessoa

CBF aprova redução gradual do limite de estrangeiros no futebol brasileiro

Os clubes das Séries A e B do Campeonato...

São Vicente reformula Conselho Municipal de Turismo

São Vicente reformulou o Conselho Municipal de Turismo e...

Projeto quer transferir sessões da Câmara de Santos para as 18 horas

Um projeto de resolução apresentado na Câmara Municipal de...