A Fifa passou a mão na cabeça dos EUA: o vermelho de Balogun virou pó, e a mensagem é constrangedora

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Não existe outra forma de ler o que a Fifa fez neste domingo. Ao suspender os efeitos do cartão vermelho aplicado ao atacante Folarin Balogun, artilheiro dos Estados Unidos na Copa do Mundo, a entidade de Gianni Infantino não apenas reescreveu o próprio regulamento no meio do torneio — ela deixou escancarado a quem serve. A um mês de mandato, o recado é claro: nesta Copa organizada em solo americano, o anfitrião joga com regras diferentes das que valem para todos os outros.

Recapitulando o caso sem filtro. Na vitória por 2 a 0 sobre a Bósnia, nos 16 avos, Balogun pisou no tornozelo do zagueiro Muharemovic. O árbitro brasileiro Raphael Claus foi chamado ao VAR, analisou o lance com calma e expulsou o atacante — decisão técnica, tomada dentro das quatro linhas, do jeito que a arbitragem deve funcionar. Pelas regras da própria Fifa, cartão vermelho direto significa suspensão automática de um jogo, sem direito a recurso. Ponto. Era para ser simples.

A regra que não vale quando o beneficiário é o anfitrião

Só que a Fifa encontrou uma saída. Apelou ao Artigo 27 do seu Código Disciplinar, que permite ao órgão judicial “suspender total ou parcialmente” uma punição, e colocou Balogun em “período probatório” de um ano. Traduzindo: o vermelho continua lá, mas não vale nada — a menos que o jogador reincida. Na prática, o artilheiro dos Estados Unidos está liberado para enfrentar a Bélgica nesta segunda-feira, em Seattle, valendo vaga nas quartas de final.

A pergunta que fica é óbvia e incômoda: isso aconteceria com o artilheiro da Bósnia? Com um centroavante de Gana, do Uzbequistão, da Costa do Marfim? A resposta que todo mundo conhece é não. Times pequenos perdem seus jogadores por expulsões muito mais discutíveis e ninguém na Fifa move uma palha para “reavaliar” a punição. O peso do escudo dos Estados Unidos, do outro lado, fez a entidade descobrir uma flexibilidade regulamentar que ela jura não ter para o resto do mundo.

O aval de Trump e o troféu de Infantino

E aqui a coincidência deixa de ser coincidência. A decisão foi celebrada publicamente por Donald Trump, que em sua rede social classificou a revogação como a correção de uma “grande injustiça”. O mesmo Donald Trump que, em dezembro de 2025, recebeu das mãos de Gianni Infantino o inaugural “Prêmio da Paz da Fifa”. O mesmo Infantino que transformou sua gestão numa sucessão de acenos à Casa Branca, frequentando o Salão Oval e alinhando o calendário e o discurso do futebol mundial aos interesses do governo americano.

Não é preciso ser ingênuo para juntar as peças. Uma entidade que entrega prêmio da paz a um presidente e depois, semanas depois, quebra o próprio regulamento para beneficiar a seleção desse país não está fazendo justiça esportiva. Está prestando um serviço. E quando o beneficiário aplaude a decisão em rede social minutos depois, o constrangimento se completa.

O preço é a credibilidade

O problema não é só Balogun jogar ou não contra a Bélgica. O problema é o precedente. A Fifa passou uma Copa inteira dizendo às seleções menores que a regra é a regra, que o VAR é soberano, que cartão vermelho direto não comporta recurso. Bastou o anfitrião precisar do seu artilheiro para que tudo isso virasse letra flexível. A mensagem que sobra para o resto do mundo é devastadora: existe uma competição para os Estados Unidos e outra para os demais.

Raphael Claus fez o trabalho dele com correção. Aplicou a regra que a própria Fifa escreveu. Foi a Fifa que, dias depois, decidiu que aquela regra não valia — não por uma reavaliação técnica do lance, que segue sendo uma entrada de pisão no tornozelo do adversário, mas por conveniência política. É a entidade sabotando o próprio árbitro para agradar quem manda no país-sede.

A Copa de 2026 ainda vai coroar um campeão dentro de campo. Mas, fora dele, já tem um vencedor antecipado: os Estados Unidos, que descobriram que, com a Fifa de Infantino, até cartão vermelho é negociável. Resta saber quantas outras regras vão derreter no caminho, sempre que a conveniência do anfitrião — e do homem que ele mais quer agradar — assim exigir. Submissa é a palavra. E é uma palavra que envergonha o futebol.

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