Aos 38, Messi faz história com um hat-trick na estreia — e expõe a pergunta que o Brasil tem vergonha de responder sobre Neymar

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Tem noites em que o futebol é generoso o suficiente para colocar duas verdades lado a lado, para que ninguém possa fingir que não viu. A desta terça-feira foi uma dessas. Enquanto Lionel Messi entrava para a história eterna das Copas do Mundo com três gols na estreia da Argentina contra a Argélia, do outro lado do continente do futebol restava uma imagem que o torcedor brasileiro insiste em não encarar de frente: Neymar, cinco anos mais novo, foi a um Mundial sem a menor condição de disputá-lo.

Messi fez 16 gols em Copas e igualou Klose como o maior artilheiro da história do torneio. Marcou seu primeiro hat-trick em Mundiais, virou o jogador mais velho a fazer isso e ainda ultrapassou Rivellino como o maior goleador de fora da área na história das Copas. Aos 38 anos. Tudo isso aos 38 anos. E saiu de campo aos 34 do segundo tempo aplaudido de pé, poupado, porque já tinha resolvido. É aí que a comparação começa a doer.

Cinco anos de diferença, um abismo de realidades

Messi nasceu em 1987. Neymar, em 1992. Pela lógica natural da biologia, era o brasileiro quem deveria estar no auge físico, sobrando, decidindo. É o contrário. O argentino chegou a esta Copa correndo, fazendo hat-trick e quebrando recordes; o brasileiro chegou no banco, em “fase de reconstrução física”, como a própria comissão técnica admite, e assistiu de fora à estreia contra o Marrocos sem entrar um minuto sequer.

Não é azar. Não é só a lesão de ligamento de 2023, por mais grave que tenha sido. É a soma de uma carreira inteira de escolhas — e é justamente nas escolhas que mora a diferença entre quem chega aos 38 destruindo e quem chega aos 34 dependendo de “se preparar bem”, como Ancelotti pediu publicamente mais de uma vez.

A “decisão fácil” que o gênio levou a sério

Vamos falar do que pouca gente quer dizer em voz alta. Messi trocou o auge do futebol europeu pela MLS em 2023. Foi para uma liga incomparavelmente menos intensa, de calendário mais curto, com janelas longas de descanso ao longo do ano. Para muitos, foi a aposentadoria disfarçada, o passeio de fim de carreira, o craque indo buscar conforto.

Só que Messi não tratou aquilo como férias. Tratou como estratégia. Usou as três temporadas de carga reduzida para preservar o corpo, dosar o desgaste e chegar ao Mundial dos Estados Unidos com pernas, fôlego e fome. Pegou a liga “fraca” e a transformou em um spa de alto rendimento a serviço de um objetivo único: arrebentar em mais uma Copa. E arrebentou. O que parecia acomodação era, na verdade, o planejamento frio de quem sabe exatamente o que o próprio corpo aguenta — e o que ele precisa para render quando o jogo importa.

E o Brasil, com o seu maior craque, fez o oposto

Agora olhe para o nosso lado. Neymar passou os últimos anos numa novela de lesões, recuperações interrompidas e retornos apressados. Voltou ao Santos em 2025 num projeto para reencontrar a forma, mas acumulou novas contusões musculares e nunca conseguiu engatar a sequência que o transformaria de novo no jogador decisivo de antes. A comissão da Seleção chegou a ter acesso a dados de GPS e índices fisiológicos muito abaixo do padrão de um atleta de elite. E mesmo assim ele foi convocado — mais pela liderança, pelo peso simbólico e pelo lobby dos companheiros do que pela certeza de que entregaria futebol.

A convocação de Neymar foi um ato de fé. A presença de Messi nesta Copa é um ato de método. E o resultado dessa diferença ficou escancarado em 24 horas: um fez três gols na estreia; o outro nem saiu do banco.

O espelho que ninguém no Brasil quer encarar

A parte mais cruel dessa história não é o que Messi fez. É o que ele representa. Ele é a prova viva de que talento, sozinho, não basta — e de que longevidade no mais alto nível é construída com disciplina, gestão de corpo e decisões impopulares tomadas anos antes do palco principal.

Neymar tem o talento. Sempre teve. Talvez o maior da sua geração brasileira. Mas talento que não se sustenta fisicamente vira aquilo que vimos contra o Marrocos: um camisa 10 no banco, torcendo, enquanto a Seleção dependia de um lampejo de Vinicius Júnior para não perder a estreia.

Messi, aos 38, mostrou o caminho que Neymar, aos 34, não trilhou. E essa é a pergunta que o futebol brasileiro tem vergonha de responder: se o argentino conseguiu transformar o fim da carreira em mais um capítulo histórico, por que o nosso maior craque chegou à própria despedida em Copas sem condição de entrar em campo? A resposta não está no joelho. Está nas escolhas. E ela dói mais do que qualquer derrota.

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