No debate da Band de domingo (18), Flávio Bolsonaro prometeu comprar dívidas dos bancos e congelá-las por seis meses para pessoas físicas. Para empresas, falou em prazo de um ano. A proposta toca num problema real: quem está endividado precisa de tempo e condições para recuperar o orçamento. Mas uma pausa no pagamento não elimina a dívida — e o candidato ainda não explicou quem arcaria com o custo da operação. A fala foi registrada na cobertura do debate.
A primeira dúvida é o significado de “congelar”. As parcelas seriam apenas adiadas ou os juros também deixariam de correr? Se a cobrança parar, mas os juros continuarem, a família pode chegar ao fim dos seis meses devendo mais do que antes. Uma empresa que passe um ano sem pagar corre risco semelhante. Também não está claro se as prestações adiadas seriam distribuídas ao longo do contrato ou cobradas num prazo curto depois da carência.
A segunda pergunta é ainda maior: por quanto o governo compraria essas dívidas? Se pagar aos bancos mais do que conseguirá recuperar dos devedores, a diferença será uma despesa pública. Em outras palavras, uma promessa apresentada como alívio privado pode transferir parte da conta para todos os contribuintes. A campanha não divulgou o volume de débitos que pretende adquirir, o preço de compra, a origem dos recursos nem uma estimativa de perdas. Sem esses dados, não é possível calcular o custo da proposta.
Há ainda um risco para quem precisar de empréstimo no futuro. Se a medida impuser perdas inesperadas aos credores, os bancos poderão reagir restringindo financiamentos ou cobrando juros maiores para compensar o risco. Estudo do Banco Central mostra que a expectativa de inadimplência afeta as taxas de crédito. Isso não significa que toda renegociação encareça os empréstimos; o efeito dependerá de como o programa for desenhado e de quem assumirá as perdas.
A assessora econômica de Flávio já havia mencionado um programa para endividados apoiado em ativos da União, mas não detalhou à Folha de S.Paulo como a operação seria financiada. Programas de renegociação podem funcionar quando definem público, descontos, garantias e custos. O Desenrola Brasil, por exemplo, estabeleceu regras para a negociação e o parcelamento das dívidas.
Aliviar o endividamento é necessário. O alerta é que o “congelamento” anunciado por Flávio, sem regras claras, pode apenas adiar o problema para o devedor e repassar parte do prejuízo ao orçamento público ou ao crédito de toda a economia. Antes de prometer uma solução para milhões de pessoas, o candidato precisa explicar quanto ela custará, quem pagará e se a dívida realmente ficará menor.


