Jair Bolsonaro voltou a aparecer no noticiário por causa de uma nova crise de soluços justamente quando entra na reta final da prisão domiciliar temporária concedida por razões de saúde. Boletim médico apresentado ao STF nesta sexta-feira informa que o ex-presidente está com recorrência de soluços “acima da média” há sete dias, embora o quadro vascular e cardiológico seja descrito como estável.
O novo episódio inevitavelmente reacende o estranhamento político em torno da domiciliar. A medida foi autorizada pelo ministro Alexandre de Moraes por 90 dias, após alta hospitalar, com a justificativa de garantir a recuperação de Bolsonaro em casa.
O problema para a narrativa de fragilidade absoluta é que, no mesmo dia em que deixou o hospital para começar a cumprir a domiciliar, Bolsonaro foi filmado em casa em um momento descontraído, brincando com cachorros, sentado no quintal da residência. As imagens circularam amplamente e enfraqueceram, para parte da opinião pública, a imagem de um paciente sob quadro tão delicado quanto o discurso político tentava sustentar.
Agora, semanas depois, o ex-presidente volta a apresentar um boletim com destaque para os soluços, além de relato de cansaço leve, fadiga a médios esforços e desconforto nos movimentos do ombro direito. O documento informa ainda que a equipe médica decidiu manter doses elevadas de medicação específica e dieta rigorosa com baixo teor de acidez.
Não há, até o momento, prova pública de simulação ou fraude. Mas o contexto político faz o caso inevitavelmente gerar suspeitas e questionamentos. Quando um novo problema de saúde reaparece em momento sensível do cumprimento da pena, e depois de imagens que mostraram Bolsonaro em situação aparentemente tranquila dentro de casa, o debate deixa de ser apenas médico e volta a ser também político.
No fim, a coincidência pesa mais do que o boletim. Porque, no bolsonarismo, até uma crise de soluços acaba entrando na disputa de narrativa.


