Guarujá é uma ilha, está cercado de água e está localizado em uma das regiões mais chuvosas do Estado de São Paulo. Ainda assim, falta água na torneira.
À primeira vista, parece uma contradição. Mas quando colocamos lado a lado quanto a cidade consome, quanto consegue produzir, quanto armazena e quanto dessa água efetivamente aparece como consumo, o problema começa a ficar mais claro.
Imagine o sistema de abastecimento como uma grande caixa-d’água com vários canos. Não basta ter uma torneira potente enchendo essa caixa. É preciso ter água chegando à torneira, tubulações sem vazamentos, pressão suficiente e capacidade para guardar água quando sobra para usar quando falta.
É justamente aí que Guarujá fica vulnerável.
Comecemos pela demanda
Os dados utilizados no diagnóstico da revisão do Plano Diretor registram 50.081.599 m³ de água produzidos em um ano, contra 18.320.236 m³ registrados como consumidos.
O consumo registrado equivale a aproximadamente:
50,2 milhões de litros por dia, ou cerca de 581 litros por segundo.
Esse número é muito importante porque representa uma espécie de demanda média anual registrada da cidade.
Mas Guarujá não funciona com uma população constante durante todo o ano. O próprio diagnóstico municipal reconhece que a população flutuante da Baixada Santista pode aumentar entre aproximadamente 30% e mais de 50% em relação à população fixa e recomenda que a Sabesp forneça séries mensais de produção e consumo justamente para comparar períodos comuns e alta temporada.
Se fizermos apenas um exercício matemático — ainda não uma medição real do consumo de verão — teríamos:
| Situação | Demanda equivalente |
|---|---|
| Média anual registrada | 581 L/s |
| Demanda +30% | 755 L/s |
| Demanda +50% | 871 L/s |
| Demanda dobrada | 1.162 L/s |
Portanto, a primeira informação que ainda precisamos obter da Sabesp é muito simples: qual é o consumo real de Guarujá em um mês comum, em janeiro e nos dias de maior pico?
Sem essa curva, enxergamos a média, mas não o momento em que o sistema realmente é colocado à prova.
A ETA pode tratar 2.000 litros por segundo. Mas isso não quer dizer que ela sempre produza 2.000
A capacidade nominal indicada para a ETA Jurubatuba é de aproximadamente 2.000 litros por segundo.
Isso equivale a 172,8 milhões de litros por dia.
Parece muito, principalmente diante dos 50,2 milhões de litros de consumo médio diário.
O problema começa quando descobrimos que a produção efetivamente registrada no período analisado foi de aproximadamente:
137,2 milhões de litros por dia, ou 1.588 L/s.
Ou seja, a produção média correspondeu a cerca de 79% da capacidade nominal.
Isso já demonstra uma primeira regra importante:
capacidade instalada não é a mesma coisa que capacidade realizada.
É como ter um carro capaz de chegar a 200 km/h. A ficha técnica informa a capacidade máxima do veículo, não a velocidade que ele consegue manter em qualquer estrada e em qualquer condição.
No abastecimento, existe uma limitação ainda anterior à ETA: é preciso haver água para captar.
Em 2025, os 2.000 L/s chegaram a aproximadamente 900 L/s
Esse talvez seja o número que melhor explica a vulnerabilidade.
O Relatório Anual de 2025 da Prefeitura registra que, durante a estiagem, a disponibilidade do sistema Jurubatuba caiu dos aproximadamente 2.000 L/s para 900 L/s.
Ou seja, uma redução da ordem de 55%.
O próprio relatório registra que o sistema chegou a operar em torno de 44% da capacidade, acompanhado de redução da pressão e episódios de falta d’água em diferentes regiões de Guarujá e Vicente de Carvalho.
Portanto, não adianta a ETA possuir capacidade para tratar 2.000 L/s se, naquele momento, os mananciais conseguem entregar algo próximo de 900.
Os rios Jurubatuba e Jurubatuba-Mirim são a torneira que abastece a grande caixa.
E essa torneira diminui durante a estiagem.
Depois vem uma segunda pergunta: o que acontece com a água depois que ela é produzida?
Aqui aparece um número que merece muita atenção.
Produção anual registrada:
50,08 milhões de m³.
Consumo registrado:
18,32 milhões de m³.
A diferença é:
31,76 milhões de m³ por ano.
Ou aproximadamente:
87 milhões de litros por dia.
Matematicamente, a diferença entre produzido e consumido corresponde a:
63,4% da produção.
Isso significa que o consumo registrado equivale a apenas 36,6% do volume produzido.
É importante fazer uma ressalva: não podemos afirmar que esses 63,4% sejam integralmente vazamentos físicos. O próprio conjunto de dados registra volume faturado de 22,93 milhões de m³, superior ao volume classificado como consumido, indicando diferenças comerciais e metodológicas que precisam ser esclarecidas pela Sabesp.
Mas o diagnóstico municipal é claro ao classificar a situação de referência como de “perdas elevadas” e prevê metas de redução de perdas como forma de gerar ganho de capacidade para o sistema.
Então vale fazer uma pergunta matemática.
E se essa diferença estiver próxima da perda total do sistema?
Nesse cenário, cada 100 litros produzidos resultariam em aproximadamente:
36,6 litros registrados como consumo.
Os outros 63,4 litros ficariam entre perdas físicas, aparentes, operacionais ou diferenças de contabilização.
E aí a leitura dos 2.000 L/s muda completamente.
Se aplicássemos essa eficiência de 36,6%, uma capacidade nominal de:
2.000 L/s
representaria aproximadamente:
732 L/s de capacidade útil equivalente.
Nossa demanda média é de cerca de:
581 L/s.
A enorme folga que parecia existir praticamente desapareceria.
E no verão a matemática já começaria a não fechar
Mantendo essa hipótese de eficiência, para entregar 581 L/s ao consumidor seria necessário produzir aproximadamente:
1.588 L/s.
Curiosamente, praticamente a produção média observada nos próprios dados.
Para entregar uma demanda 30% superior, cerca de 755 L/s, seria necessário produzir aproximadamente:
2.065 L/s.
Isso já ultrapassaria a capacidade nominal de 2.000 L/s.
Com demanda 50% maior, cerca de 871 L/s, seriam necessários aproximadamente:
2.382 L/s de produção.
Portanto, se a diferença entre produção e consumo realmente refletir algo próximo do nível total de perdas do sistema, a conta já ficaria apertada em alta temporada mesmo sem estiagem.
Agora imagine alta temporada e estiagem acontecendo juntas.
Com 900 L/s na origem, o sistema entra em outra realidade
Se, em uma situação de estiagem, estiverem disponíveis aproximadamente 900 L/s e mantivermos apenas para exercício a mesma eficiência de 36,6%, teríamos algo equivalente a:
329 L/s úteis.
Compare:
demanda média: 581 L/s
oferta equivalente: 329 L/s
déficit: 252 L/s.
São aproximadamente:
21,8 milhões de litros por dia de diferença.
Num cenário de demanda 50% superior:
demanda: 871 L/s
oferta: 329 L/s
déficit: 542 L/s.
Ou quase:
46,8 milhões de litros por dia de déficit.
É por isso que pequenas variações deixam de ser pequenas quando um sistema está trabalhando com pouca margem de segurança.
“Então é só aumentar a pressão?”
Também não.
Quanto maior a pressão dentro de uma tubulação com fissuras ou vazamentos, maior tende a ser a quantidade de água perdida.
Por isso sistemas de abastecimento utilizam VRPs — válvulas redutoras de pressão.
A ideia faz sentido: controlar a pressão reduz vazamentos e ajuda a evitar novos rompimentos.
Mas existe um limite.
A água também precisa de pressão para subir até os reservatórios dos imóveis.
Como regra física aproximada, cada 10 metros de altura representam cerca de 1 bar de pressão apenas para vencer a gravidade, sem contar as perdas internas das tubulações.
Por isso pode acontecer algo curioso:
há água dentro da rede, mas não existe pressão suficiente para ela chegar até a caixa-d’água.
Isso é particularmente importante em uma cidade que depende também das caixas-d’água de casas, prédios, hotéis e estabelecimentos como uma pequena reserva descentralizada.
Se a pressão não consegue recompor essas caixas, elas esvaziam.
E o morador rapidamente percebe a falta d’água.
O relatório municipal de 2025 confirma que, quando a disponibilidade do Jurubatuba caiu para cerca de 900 L/s, houve também redução da pressão da água.
O que ainda precisamos medir é quanto dessa baixa pressão decorre da escassez de vazão, da operação das VRPs, da configuração de cada setor ou da combinação desses fatores.
E quanto Guarujá consegue armazenar?
Outro número importante do diagnóstico é a reservação existente:
50.400 m³
ou:
50,4 milhões de litros.
Compare com o consumo médio diário que calculamos:
50,2 milhões de litros por dia.
Ou seja, toda a reservação nominal registrada equivale matematicamente a aproximadamente:
24 horas de consumo médio.
Na hipótese de demanda 50% maior, cairia para algo próximo de:
16 horas.
E isso ainda é uma conta idealizada.
Na realidade, os reservatórios ficam espalhados por diferentes setores, não podem ser completamente esvaziados e precisam manter níveis mínimos para o funcionamento hidráulico do sistema.
Portanto, não temos uma grande reserva estratégica capaz de manter a cidade durante vários dias de estiagem.
Temos principalmente reservação operacional.
O novo reservatório de Morrinhos acrescenta 10 milhões de litros de água tratada, elevando significativamente a capacidade naquela região. Ele possui conjuntos de bombeamento projetados para 178 L/s em direção a Morrinhos/Jardim Brasil e 213 L/s para o setor Ciro Alves.
É uma melhoria importante.
Mas 10 milhões de litros representam aproximadamente 4 horas e 47 minutos do consumo médio da cidade.
Ou seja: ajuda muito operacionalmente, mas não resolve sozinho uma estiagem prolongada.
É justamente por isso que reduzir perdas pode valer tanto quanto encontrar mais água
Há uma conta muito interessante.
Com produção média de aproximadamente 1.588 L/s, cada redução de 10 pontos percentuais nas perdas representa, matematicamente:
159 L/s recuperados.
São aproximadamente:
13,7 milhões de litros por dia.
Para comparação, a nova captação do Rio Trindade foi apresentada com capacidade de até 100 L/s, equivalentes a 8,64 milhões de litros por dia.
Ou seja:
recuperar 10 pontos percentuais de eficiência pode representar mais água disponível do que acrescentar uma fonte de 100 L/s.
É por isso que procurar vazamentos, trocar redes antigas, melhorar macromedição, setorizar, controlar pressão e monitorar o sistema não são medidas secundárias.
São, literalmente, formas de produzir água disponível sem precisar retirar mais água da natureza.
O próprio novo contrato prevê aproximadamente R$ 1,62 bilhão em investimentos até 2060 para água e esgotamento, incluindo produção, redes, reservação e redução de perdas.
Então, afinal, por que falta água em Guarujá?
Porque nosso abastecimento funciona como uma conta bancária com pouca reserva.
Em condições normais, dinheiro entra e as contas são pagas.
Na estiagem, a receita cai.
No verão, as despesas aumentam.
Se ainda existir um grande desperdício entre aquilo que entra e aquilo que efetivamente chega ao destino, rapidamente falta saldo.
É isso que os números mostram.
Guarujá possui uma ETA com capacidade nominal de aproximadamente 2.000 L/s, mas sua produção média registrada ficou próxima de 1.588 L/s. Na estiagem de 2025, a disponibilidade chegou a cerca de 900 L/s. O consumo médio registrado equivale a aproximadamente 581 L/s. Entre a água produzida e a registrada como consumida existe uma diferença de 63,4%, que precisa ser tecnicamente explicada. E a reservação disponível corresponde, em ordem de grandeza, a aproximadamente um dia de consumo médio, não a vários dias de autonomia.
Portanto, a discussão sobre segurança hídrica em Guarujá não pode se resumir a perguntar:
“Quanto a ETA consegue produzir?”
Precisamos perguntar:
Quanto conseguimos captar durante uma estiagem? Quanto realmente produzimos? Quanto perdemos? Quanto conseguimos distribuir com pressão adequada? Quanto conseguimos armazenar? E qual é a demanda real quando a cidade está cheia?
Quando tivermos essas respostas medidas diariamente e por setor, teremos não apenas a explicação para a falta d’água.
É isso que é planejamento urbano estratégico: não é apenas obter respostas, mas saber fazer as perguntas certas. Planejamento urbano estratégico começa antes da solução.
Começa pela capacidade de medir o problema e fazer as perguntas certas. Sem isso, as soluções se tornam vazias, investimos, construímos e intervimos — mas continuamos correndo atrás dos mesmos problemas.



