A Universidade Metropolitana de Santos (Unimes) reconheceu 480 títulos de mestrado e doutorado emitidos pela Facultad Interamericana de Ciencias Sociales (FICS), instituição paraguaia apontada por investigadores brasileiros e paraguaios como irregular. O número corresponde a 64% dos títulos da FICS reconhecidos no Brasil por meio da Plataforma Carolina Bori, sistema administrado pelo Ministério da Educação (MEC).
Segundo levantamento divulgado pelo g1 Santos, a FICS não possui registro no Conselho Nacional de Ensino Superior do Paraguai e, portanto, não existe legalmente como instituição de ensino superior naquele país. O Ministério Público paraguaio afirma que documentos usados para demonstrar sua regularidade continham carimbos, datas e selos falsos.
A maior parte dos títulos reconhecidos pela Unimes é de doutorado. Apenas dois são de mestrado, com predominância de diplomas nas áreas de educação e saúde. A universidade começou a deferir pedidos de egressos da FICS em 2024, quando 264 processos foram aprovados. Em 2025, outros 216 títulos foram reconhecidos.
A análise dos dados da Plataforma Carolina Bori identificou ainda cerca de 150 casos em que o reconhecimento foi registrado pela Unimes no mesmo dia em que o processo deu entrada no sistema. Ao todo, a plataforma reúne mais de 700 títulos da FICS reconhecidos por universidades brasileiras, públicas e privadas.
Unimes suspendeu processos em 2025
Em nota, a defesa da Unimes afirmou que a atuação da universidade na Plataforma Carolina Bori se limita ao reconhecimento de diplomas estrangeiros de pós-graduação stricto sensu, conforme a Resolução CNE/CES nº 2/2024.
A instituição informou que analisa a documentação apresentada pelos interessados de acordo com os critérios do MEC e que, desde abril de 2025, mantém suspensos os processos de egressos da FICS, após orientação de cautela do Ministério da Educação e diante das investigações da Polícia Federal.
A Unimes também declarou que poderá instaurar sindicâncias e os procedimentos necessários para anular reconhecimentos baseados em irregularidades, com respeito ao contraditório e à ampla defesa.
Investigação e cancelamentos
O proprietário da FICS, o brasileiro Ismael Fenner, cumpre prisão domiciliar na região metropolitana de Assunção desde 28 de julho. Ele é investigado no Paraguai por suspeita de estelionato e produção de documentos falsos e também foi indiciado pela Polícia Federal brasileira por uso de documentação falsa.
Fenner afirma ser vítima de perseguição de empresários do setor educacional e sustenta que há uma disputa judicial pela marca de outra instituição, o ISICS. Os direitos que ele reivindica sobre esse instituto, contudo, estão suspensos.
O caso já provocou o cancelamento de 218 títulos pela Universidade Federal de Alagoas (Ufal). A instituição afirmou ter sido induzida ao erro por documentos falsos. A Polícia Federal orientou as universidades brasileiras que reconheceram diplomas da FICS a instaurar procedimentos para analisar a eventual cassação dos títulos.
O MEC informou que administra a Plataforma Carolina Bori e notifica as instituições envolvidas, mas que medidas definitivas dependem da conclusão dos processos de apuração. A situação também atingiu estudantes que investiram valores elevados nos cursos e relataram prejuízos financeiros e emocionais após o cancelamento dos títulos.
Imagem gerada por IA.


