Quem poderia imaginar? CAC vira ponte legal para abastecer facção em guerra no interior de SP

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O que poderia dar errado quando o acesso a armas de grosso calibre é facilitado por registros legais? Em Rio Claro, no interior paulista, a resposta veio em forma de investigação criminal, guerra entre facções e um servidor público morto em uma operação policial.

Documentos do Ministério Público de São Paulo apontam que um fiscal da Prefeitura de Rio Claro teria usado o registro de Caçador, Atirador Desportivo e Colecionador (CAC) para comprar armas de forma regular e desviá-las ao Comando Vermelho, facção do Rio de Janeiro em conflito aberto com o PCC na região. Segundo as apurações, o esquema incluía até a simulação de furtos para “legalizar” o desaparecimento do armamento.

O servidor, conhecido como Alemão, foi morto em uma suposta troca de tiros com a Polícia Militar durante o cumprimento de um mandado de busca e apreensão, em ação que contou com apoio do Gaeco. A investigação corre sob sigilo, mas os relatórios indicam que ele atuava como elo logístico, armazenando e fornecendo armas e munições para o crime organizado.

De acordo com os investigadores, o padrão se repetia: armas adquiridas legalmente eram registradas em seu nome e, pouco tempo depois, comunicadas como furtadas em ocorrências consideradas suspeitas. Na prática, o armamento reaparecia alimentando a disputa violenta entre facções rivais no interior paulista.

O histórico policial do fiscal reforça o alerta. Ele aparece em diversas ocorrências, ora como vítima de furto de arma, ora como investigado por crimes como porte ilegal, receptação, roubo e associação criminosa. Em 2019, chegou a ser indiciado por envolvimento no roubo à residência do então presidente da Câmara Municipal de Rio Claro, crime que chamou atenção pelo uso de viatura clonada e falsa identificação como agentes federais.

Testemunhos colhidos pela investigação indicam ainda que o servidor mantinha vínculos diretos com integrantes do Comando Vermelho, dava abrigo a criminosos procurados e usava armas para intimidar pessoas. A atuação o colocaria no centro da engrenagem que conecta o mercado formal de armas à violência das facções.

O caso reacende um debate incômodo, mas previsível: quando o controle falha e o acesso a armas é flexibilizado, o desvio para o crime organizado deixa de ser exceção e passa a ser consequência. Quem poderia imaginar que isso fosse acontecer?

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