Uma trajetória marcada por superação pessoal e dedicação ao serviço público transformou a vida da cabo Kátia Cilene, da Polícia Militar de São Paulo. Após quase três décadas atuando no atendimento de emergências pelo telefone 190, a policial hoje integra a rede de proteção a mulheres vítimas de violência doméstica e utiliza sua própria experiência para acolher e orientar quem enfrenta situações semelhantes.
Antes de ingressar na corporação, ainda jovem e recém-chegada de Recife à capital paulista, Kátia viveu episódios de violência dentro do relacionamento em que estava na época. Um dos momentos mais marcantes ocorreu quando contou ao então marido que havia sido aprovada no concurso da Polícia Militar. Durante uma discussão, ele tentou empurrá-la para fora do carro enquanto trafegavam por uma rodovia.
Mesmo diante das dificuldades, ela decidiu seguir em frente com o sonho de ingressar na corporação. Na época, era dona de casa e vivia sob pressão do marido, que não permitia que trabalhasse. Determinada a mudar de vida, saiu escondida de casa em busca de emprego e encontrou duas jovens que se preparavam para se inscrever em um concurso da chamada “Polícia Feminina”. Com o dinheiro que tinha apenas para a passagem de ônibus, utilizou cinco cruzeiros para fazer a inscrição.
Sem contar ao marido, Kátia se preparou para o processo seletivo e realizou todas as etapas — prova escrita, exames médicos e demais fases — de forma discreta, temendo ser impedida de continuar. Quando veio a aprovação, a notícia gerou uma reação agressiva dentro de casa. Ainda assim, ela decidiu seguir com o curso de formação.
Durante os oito meses de treinamento, conciliou os estudos com os cuidados com os filhos e a rotina familiar. Nesse período, contou com o apoio da tia, que ajudava com as crianças, além do suporte de colegas da corporação. Ao final da formação, concluiu o curso como a quarta colocada da turma e foi designada para o Centro de Operações da Polícia Militar (Copom), onde trabalhou por 28 anos no atendimento telefônico de emergências.
Ao longo da carreira, tornou-se uma das vozes por trás do telefone 190, ouvindo diariamente pedidos de socorro e relatos de violência doméstica. Mesmo assim, ela afirma que demorou anos para compreender plenamente a situação que havia vivido em seu próprio relacionamento.
Esse reconhecimento veio apenas em 2023, quando participou da formação para atuar na Cabine Lilás, iniciativa voltada ao atendimento especializado de mulheres vítimas de violência. Durante o curso, que contou com a participação de psicólogas, promotoras e representantes da Defensoria Pública, Kátia passou a identificar os ciclos da violência doméstica.
“Eu me identifiquei, percebi que tinha vivido aquilo por anos”, contou.
Durante mais de um ano atuando na Cabine Lilás, ela passou a ouvir histórias muito semelhantes à sua. Em muitas ligações, após escutar relatos sobre marido, filhos e rotina familiar, fazia uma pergunta às mulheres que buscavam ajuda: “Você falou do seu marido, dos seus filhos, mas e você?”. A intenção era lembrar que muitas vítimas acabam se anulando dentro da própria família.
Atualmente, próxima de completar 30 anos de Polícia Militar, Kátia atua na formação de novos profissionais. Ela ministra aulas de Tecnologia da Informação e Comunicação na Escola Superior de Soldados e também leciona Direitos Humanos no Comando de Policiamento de Choque.
Segundo a policial, o atendimento humanizado é fundamental no trabalho de quem atua na linha de frente das emergências. “Quem liga para o 190 está em um momento de desespero. Muitas vezes é a única chance que aquela pessoa tem de pedir ajuda”, afirma.
Ao olhar para a própria trajetória, Kátia reconhece que as experiências vividas deixam marcas, mas também representam um caminho de superação. “É uma ferida que fica. Mas, com todas as dificuldades, eu venci. Não sozinha, tive apoio da minha família, dos colegas e dos meus filhos”, conclui.
Cabine Lilás
A Cabine Lilás reúne iniciativas voltadas ao combate à violência contra a mulher dentro do sistema de atendimento da Polícia Militar. O espaço oferece escuta especializada e orientações sobre direitos e acesso a serviços de apoio, como assistência jurídica gratuita, guarda dos filhos, pensão alimentícia, abrigamento e serviços de saúde.
Desde 2023, a iniciativa já realizou cerca de 25 mil atendimentos, incluindo orientações, acompanhamento de casos e intervenções policiais. No período, também foram registradas 120 prisões em flagrante por descumprimento de medidas protetivas.
O projeto piloto foi iniciado na capital paulista em março de 2024 e contou com o treinamento de 104 policiais militares femininas para atuar no atendimento especializado em todo o Estado.
Além da Cabine Lilás, as vítimas também podem acessar o aplicativo SP Mulher Segura, que permite registrar ocorrências, acionar o botão do pânico em caso de descumprimento de medida protetiva e solicitar apoio policial em situações de risco.
Atualmente, o Estado de São Paulo conta ainda com 142 Delegacias de Defesa da Mulher, sendo 18 com atendimento 24 horas, além de 173 salas especializadas instaladas em plantões policiais, onde o atendimento pode ser realizado por videoconferência por equipes treinadas.


