Marrocos prova que 2022 não foi acaso — e Koeman terá que explicar a vida toda por que Memphis Depay não jogou um minuto

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A Holanda está fora da Copa do Mundo de 2026, eliminada pelo Marrocos nos pênaltis em Monterrey, e há duas verdades que precisam ser ditas com todas as letras. A primeira: o Marrocos mereceu, jogou melhor e confirmou que a campanha histórica de 2022 não foi sorte de uma geração. A segunda, mais dura para o lado europeu: Ronald Koeman entregou um jogo decidido nos pênaltis com Memphis Depay, um dos cobradores mais confiáveis que tinha à disposição, sentado no banco do primeiro ao último minuto. As duas coisas, juntas, explicam por que a Laranja Mecânica vai para casa cedo de novo.

Não foi uma zebra no sentido clássico da palavra. Zebra é o azarão que se tranca, sofre e vence na loteria. O Marrocos fez o contrário: tomou a bola, tomou o campo e tomou as rédeas do jogo. Terminou com 65% de posse, finalizou 11 vezes contra 6 da Holanda e obrigou Bart Verbruggen a fazer pelo menos meia dúzia de defesas para segurar os europeus vivos. Quem assistiu sabe: o time mais perigoso, mais inteiro e mais corajoso em campo vestia verde e vermelho.

O Marrocos foi superior — e isso não é detalhe

Desde o primeiro tempo, em Monterrey, o Marrocos foi quem rondou o gol adversário. Hakimi, incansável pela direita, acertou a trave, exigiu defesas e ditou o ritmo. El Aynaoui assustou de cabeça. Na prorrogação, Rahimi teve nas mãos a classificação num drible primoroso dentro da área, mas parou num milagre de Verbruggen. O goleiro holandês foi, de longe, o melhor de sua seleção — e isso diz tudo sobre quem mandou no jogo.

O time comandado por Mohamed Ouahbi mostrou maturidade tática rara para uma seleção ainda rotulada como surpresa. Marcação compacta, transições rápidas, personalidade para propor o jogo contra uma potência tradicional. O Marrocos de 2026 não joga como quem espera dar certo; joga como quem sabe que é bom. E é.

O gol que emocionou e o empate que veio no sufoco

A Holanda até abriu o placar num de seus raros bons momentos, num contra-ataque preciso finalizado por Cody Gakpo após belo toque de Summerville. E ali o futebol foi maior do que o placar: Gakpo, que dias antes vivera a tragédia de perder um filho ainda na gestação, caiu no choro ao comemorar, abraçado por todo o elenco. Foi um instante de humanidade que merece todo o respeito, independentemente de camisa.

Mas o Marrocos não desabou. Reorganizou-se, o treinador mexeu com inteligência, e nos acréscimos do segundo tempo veio o empate mais simbólico possível: Talbi, que tinha acabado de entrar, cruzou para Diop — um zagueiro improvisado de centroavante — subir mais alto que todo mundo e empatar. Foi a recompensa para quem buscou o jogo o tempo inteiro.

O festival de pênaltis e a sombra de Koeman

A disputa por pênaltis foi um show de nervos, com bola na trave dos dois lados. O Marrocos desperdiçou duas (El Aynaoui e Hakimi no ferro), mas a Holanda desperdiçou três: Kluivert na trave, Timber para fora e, na cobrança decisiva, Summerville parando numa grande defesa de Bono. Coube a Saibari converter a última e mandar a Holanda para casa.

E é aqui que a conta chega para Ronald Koeman. Numa decisão por pênaltis, experiência e frieza valem ouro. Memphis Depay — o camisa 10, artilheiro histórico da seleção, cobrador acostumado à pressão e hoje craque do Corinthians — assistiu a tudo do banco. Não entrou nos 90 minutos. Não entrou na prorrogação. E, o mais incompreensível, não foi lançado nem mesmo pensando na loteria das penalidades, justamente o cenário em que um batedor confiável pode ser a diferença entre avançar e cair.

A teimosia que custou caro

A novela já vinha de longe. Desde antes do Mundial, a titularidade de Memphis era o grande debate em torno da Holanda, e Koeman insistiu em mantê-lo nas sombras. Contra o Marrocos, essa teimosia cobrou o preço máximo. Com o time errando três cobranças, fica impossível não imaginar o que teria acontecido se um dos pés mais experientes da seleção estivesse na fila — ou se sua presença em campo tivesse mudado a dinâmica nos minutos finais.

Não se trata de garantir que Memphis converteria. Trata-se de método. Um treinador que tem um especialista em decisões e o ignora numa eliminação por pênaltis precisa de uma explicação muito boa. E Koeman não tem nenhuma que convença. A Holanda saiu não só pelo brilho do Marrocos, mas também pelas próprias mãos de quem a comanda.

O que vem agora

O Marrocos avança para as oitavas de final, onde encara o Canadá, um dos anfitriões, na briga por uma vaga inédita entre os oito melhores num caminho que se abre de forma promissora. Depois de eliminar uma das seleções mais tradicionais do mundo jogando melhor que ela, ninguém mais pode olhar para os africanos como mera curiosidade simpática do torneio. O Marrocos chegou para valer — e tem cara de quem ainda vai aprontar muito nesta Copa.

A Holanda, essa, volta para casa com o gosto amargo de sempre e uma pergunta que vai perseguir Ronald Koeman por muito tempo: como se perde uma Copa do Mundo com o seu camisa 10 nunca tirando o agasalho?

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