Existe zebra, e existe a tarde de Boston. O Paraguai, que entrou na Copa do Mundo de 2026 pela porta dos fundos — como um dos oito melhores terceiros colocados, dependendo de combinação de resultados para sequer chegar ao mata-mata —, eliminou a poderosa Alemanha nos pênaltis e está nas oitavas de final. É a cara de uma Copa que já não respeita favoritismo nenhum. Mas, se a classificação é heroica e merecida no esforço, a verdade incômoda é que o Paraguai avançou com muito mais sorte do que juízo. E isso não diminui o feito: explica.
A Alemanha de Julian Nagelsmann dominou o jogo do começo ao fim. Teve 62% de posse de bola, encurralou o Paraguai no próprio campo por boa parte dos 120 minutos e martelou a defesa sul-americana sem descanso. O Paraguai, com pouco mais de 20% de posse, fez o que sabia: defendeu, defendeu e defendeu. Foi uma muralha. E foi exatamente dentro dessa muralha que a zebra começou a se desenhar.
O gol que veio do nada e o roteiro do azarão
O Paraguai mal cruzava o meio-campo, mas abriu o placar aos 41 do primeiro tempo da maneira mais simbólica possível para um azarão: aproveitando a sobra. Neuer saiu mal numa tirada de soco, a bola ficou viva, Almirón tocou para Galarza, que cruzou para Enciso completar de cabeça. Foi uma das pouquíssimas chances paraguaias na etapa — e virou gol. Eficiência cruel de quem não tem a bola, mas não desperdiça o que aparece.
A Alemanha empatou no segundo tempo com Havertz, de cabeça, após cruzamento de Wirtz, e dali em diante foi um cerco. Só não veio a virada porque o goleiro Gill resolveu fazer a partida da vida.
Gill, o verdadeiro herói da resistência
Se há um nome a ser gravado nessa zebra, é o do goleiro paraguaio. Gill defendeu cabeçada de Havertz no segundo tempo, voltou a salvar na prorrogação em finalização de Anton à queima-roupa, segurou o que a Alemanha jogou na área e ainda foi decisivo nos pênaltis. Foi a muralha atrás da muralha. Sem ele, esse jogo não chega aos pênaltis — termina muito antes, com goleada alemã.
E teve a mão do destino também. Na prorrogação, a Alemanha chegou a virar o placar com Tah, de cabeça, mas o VAR anulou por falta de Anton sobre o próprio Gill. Foi correto? Tecnicamente, sim. Mas é o tipo de lance milimétrico que, num dia menos abençoado, fica de pé e elimina o Paraguai ali mesmo. A sorte, naquele momento, vestia a camisa vermelha e branca.
Os pênaltis: o Paraguai quase jogou a classificação fora
Aqui mora a parte mais reveladora — e o motivo de “mais sorte que juízo” não ser injustiça, e sim diagnóstico. Nas cobranças, o Paraguai teve a vitória na mão duas vezes e desperdiçou as duas. Sanabria bateu para fora na cobrança que daria a classificação. Logo depois, Balbuena teve nova chance de fechar a conta e parou em Neuer. Foram dois pênaltis perdidos em sequência, dois momentos em que o Paraguai poderia ter encerrado tudo e, simplesmente, não encerrou.
Quem segurou o azarão foi o próprio adversário. A Alemanha, do alto de toda a sua tradição em disputas por pênaltis, desperdiçou três cobranças: Havertz e Woltemade pararam em Gill, e Tah mandou por cima do travessão na hora decisiva. Foi a deixa para Canale converter, com frieza, o pênalti que mandou a Alemanha para casa e o Paraguai para as oitavas. O 4 a 3 nas penalidades esconde um roteiro em que o Paraguai foi salvo, mais de uma vez, pela própria incompetência alemã do ponto da cal.
Sorte, sim. Mas a luta foi imensa
Reconhecer a sorte não é desmerecer o Paraguai — é o contrário. Aguentar 120 minutos de pressão alemã com um terço da posse de bola exige uma entrega física e emocional descomunal. A equipe de Gustavo Alfaro correu como se cada bola fosse a última, jogou o corpo na frente de cada finalização e nunca, em momento algum, entregou o jogo. Esse coração também é mérito. Times sem alma não chegam aos pênaltis contra a Alemanha; desmoronam no segundo tempo.
O Paraguai uniu as duas coisas: a raça de quem não desiste e a fortuna de quem é abraçado pelo acaso nos detalhes. Foi heroico e foi sortudo ao mesmo tempo — e essas coisas, no futebol, raramente andam separadas numa zebra desse tamanho.
O que vem agora
Nas oitavas, marcadas para 4 de julho, o Paraguai encara o vencedor de França x Suécia. Se for a França, atual potência do futebol mundial, a missão guarani beira o impossível — mas, depois do que fez em Boston, quem é que vai cravar que o Paraguai não tem mais uma zebra guardada na manga?
A Alemanha vai para casa cedo, mais uma vez, em outra Copa de frustração. O Paraguai segue vivo, contra tudo e contra todos. Teve sorte? Teve, e muita. Mas sorte, no futebol, costuma sorrir para quem corre atrás dela por 120 minutos sem parar. E o Paraguai correu como poucos.


