Há erros que custam um gol. E há erros que custam uma Copa do Mundo. Breel Embolo cometeu o segundo tipo. A Suíça segurava a Argentina, tinha acabado de igualar o placar e vivia seu melhor momento na partida quando o próprio camisa 7 desmontou tudo com um dos lances mais infantis que se viu nesta Copa. Resultado: expulso, Suíça com um a menos, e a Argentina, aliviada, atropelou na prorrogação para vencer por 3 a 1, em Kansas City, e carimbar a vaga na semifinal contra a Inglaterra. Uma classificação que os argentinos devem, em boa parte, à imaturidade do adversário.
O contexto do lance é o que torna tudo mais grave. Aos 22 do segundo tempo, Dan Ndoye tabelou com Ricardo Rodríguez e bateu cruzado para empatar em 1 a 1 — gol que premiava uma Suíça que crescia, explorava a lentidão defensiva argentina e sonhava, de verdade, com a zebra. O jogo estava aberto, os campeões do mundo balançados. Era a hora de manter a cabeça fria. Foi exatamente o que Embolo não fez.
O lance que ninguém pediu
Três minutos depois do empate, no meio-campo — longe de qualquer perigo, longe de qualquer área —, Embolo dividiu uma bola com Leandro Paredes e se atirou ao chão, simulando uma falta que não existiu. O árbitro João Pinheiro, num primeiro momento, até caiu no golpe e amarelou Paredes. Mas o VAR interveio pela nova regra de “erro de identidade” adotada nesta Copa, o árbitro reviu o lance, constatou que não houve contato e inverteu tudo: cartão cancelado para o argentino, segundo amarelo para Embolo, que já estava pendurado. Expulsão.
Pare e pense no tamanho da bobagem. Um atacante experiente, principal nome ofensivo da Suíça, cai sozinho no círculo central tentando cavar uma falta inútil — e é flagrado pela câmera numa Copa inteira monitorada pelo VAR. Não havia vantagem nenhuma a ganhar naquele lance. Havia tudo a perder. E ele perdeu.
Da euforia ao choro
A cena seguinte resume a estupidez tática do momento: Embolo deixou o gramado chorando copiosamente, inconformado, consolado pelos companheiros. Mas as lágrimas eram, antes de tudo, autoinfligidas. Ninguém o traiu, nenhum árbitro o roubou. Ele entregou a própria seleção, no instante em que ela mais precisava dele em campo, por causa de um gesto de mau-caratismo desnecessário que deu errado.
A Suíça, que segundos antes fervia com o empate, viu-se obrigada a passar o resto da partida com dez homens, defendendo, sem o seu jogador mais perigoso. O rumo do jogo mudou ali, definitivamente. E a responsabilidade tem nome e sobrenome.
A Argentina agradeceu e resolveu na prorrogação
É preciso dizer: a Argentina não estava brilhando. Fez um primeiro tempo morno, abriu o placar com Mac Allister de cabeça, após escanteio cobrado por Messi — mais uma assistência do camisa 10, que se isolou como maior garçom da história das Copas —, mas se retraiu, sofreu o empate e passou sufoco. Sem a expulsão, teria pela frente uma prorrogação em condições de igualdade contra uma Suíça envalentonada.
Com um a mais, porém, o desfecho foi outro. No segundo tempo da prorrogação, Julián Álvarez recebeu livre na entrada da área e mandou um golaço no ângulo para desempatar. Pouco depois, Lautaro Martínez completou de primeira um rebote de Kobel após chute de Almada e fechou o 3 a 1. A Argentina venceu jogando contra dez — e é justo lembrar por que eram dez.
O que fica
A Argentina está na semifinal, onde reencontra velha rival: a Inglaterra, num duelo carregado de história dentro e fora de campo. Segue viva na caça ao bicampeonato seguido, ainda longe da sua melhor versão, mas com Messi orquestrando e um elenco que, mesmo tropeçando, encontra caminhos.
A Suíça, essa, volta para casa com um gosto duplamente amargo. Fez por merecer mais, chegou ao empate, incomodou os campeões do mundo — e se puniu sozinha. A imagem que fica desta campanha não é a do gol de Ndoye nem da resistência corajosa, mas a de Embolo se jogando no gramado no meio-campo, numa simulação tão desnecessária quanto infantil, para transformar um momento de esperança no início do próprio fim. No futebol de hoje, com câmera em cada ângulo, malandragem burra virou suicídio. Embolo aprendeu do jeito mais caro. E levou a Suíça junto.


