Deputados federais usaram R$ 2,1 milhões da cota parlamentar em 2026 para impulsionar anúncios políticos nas plataformas da Meta, dona do Facebook e do Instagram. O valor considera gastos de janeiro a junho e mostra um crescimento expressivo no uso de dinheiro público para ampliar o alcance de publicações nas redes sociais.
O montante é quase quatro vezes maior que o registrado no mesmo período de 2022, ano da última eleição federal, quando os parlamentares gastaram R$ 572 mil com impulsionamento. Desde 2023, os valores vêm subindo: foram R$ 1,8 milhão naquele ano, R$ 2,1 milhões em 2024 e R$ 3,2 milhões em 2025.
A cota parlamentar pode ser usada para divulgação da atividade do mandato, inclusive em anúncios nas redes. Em anos eleitorais, porém, a utilização desse recurso para propaganda de atividade parlamentar tem limite de prazo, caso o deputado seja candidato.
A Meta aparece como a empresa que mais recebeu recursos da cota parlamentar neste ano. O avanço dos gastos é associado ao peso das redes sociais na comunicação política e à concentração do mercado de anúncios políticos digitais. Desde que Google, X, TikTok e Kwai passaram a restringir esse tipo de impulsionamento, Facebook e Instagram se tornaram as principais plataformas disponíveis para esse fim.
O deputado Bruno Ganem, do Podemos de São Paulo, lidera os gastos no período. Ele usou R$ 155 mil da cota parlamentar entre janeiro e junho para impulsionar conteúdos, muitos deles ligados à causa animal, principal bandeira de seu mandato. Desde 2020, Ganem já desembolsou R$ 740,9 mil em impulsionamento, incluindo períodos em que ainda não era deputado federal.
Entre os conteúdos promovidos pelo parlamentar estão publicações sobre castração de cães e gatos, abaixo-assinados por mudanças na lei contra maus-tratos a animais e postagens relacionadas a casos de grande repercussão nas redes sociais.
Especialistas ouvidos na reportagem avaliam que o impulsionamento se tornou uma ferramenta central para parlamentares construírem reputação e manterem presença constante junto ao eleitorado. Ao mesmo tempo, alertam que a prática fora do período eleitoral pode gerar dúvidas sobre os limites entre prestação de contas, promoção pessoal e exploração política de temas sensíveis.
Pelas regras da Meta, anúncios políticos precisam trazer identificação sobre quem pagou pelo conteúdo e informações de contato do responsável. A plataforma classifica como político o anúncio relacionado a candidatos, ex-candidatos, figuras públicas, partidos, eleições, referendos ou campanhas de incentivo ao voto.
O crescimento dos gastos indica que a disputa política nas redes deixou de depender apenas de publicações orgânicas. Com verba pública, deputados conseguem ampliar artificialmente o alcance de conteúdos, direcionar mensagens a públicos específicos e reforçar suas bandeiras antes mesmo do início oficial das campanhas.


