Receber os cruzeiros cada vez maiores que chegam a Santos depende de intervenções que estão nas mãos do poder público. A limitação principal está no comprimento do cais disponível em frente ao Terminal de Passageiros Giusfredo Santini, administrado pelo Concais.
Segundo a administradora do terminal, o trecho útil tem cerca de 294 metros, enquanto boa parte das embarcações modernas exige em torno de 350 metros para atracar com segurança, considerando ainda o espaço necessário para amarração. Na última temporada, passaram pela Cidade navios de 286 e de 333 metros.
O crescimento das embarcações é uma tendência mundial, e o Concais avalia que a estrutura precisa acompanhar esse movimento para que Santos siga como principal porto de embarque de cruzeiros da América do Sul.
Obra do PAC nunca chegou ao terminal
O consultor portuário Ivam Jardim recorda que o alinhamento do cais chegou a ser previsto em obra do Plano de Aceleração do Crescimento (PAC), em 2014, a partir de projeto doado pelo Concais à União. A intervenção começou pelo lado do cais da Marinha, mas a etapa que interessava diretamente ao terminal de passageiros ficou pelo caminho.
Para ele, a solução mais urgente agora é a instalação de defensas adequadas pela Autoridade Portuária de Santos (APS). As defensas são estruturas que avançam nos pontos em que o cais é irregular e permitem alinhar a embarcação para a atracação. Como o berço é público, o setor espera que a adequação saia a tempo da próxima temporada.
Sem esse ajuste, parte dos passageiros e das bagagens precisa ser levada de ônibus por dentro da área portuária até o local onde o navio efetivamente atraca, o que encarece a operação e aumenta o tráfego interno do Porto.
O caso do MSC Seaview
Há uma exceção que não se resolve com defensas. No caso do MSC Seaview, a restrição está na altura do navio diante dos cabos de energia da Usina de Itatinga, que cruzam o canal do Porto a 70,4 metros em maré zero.
Conforme relata Jardim, a APS entende que a folga em relação à margem de segurança prevista nas normas ficaria em torno de dez centímetros, diferença que o consultor considera uma leitura conservadora diante das condições operacionais do canal. Resolvida essa discussão e concluídas as defensas do berço 25, avalia ele, todos os navios que operam na costa brasileira poderiam encostar em frente ao terminal.
Cais da Marinha segue com uso restrito
A alternativa usada pelos navios também está comprometida. O cais da Marinha não pode ser utilizado em toda a sua extensão desde que uma embarcação atingiu o píer no ano passado, e o trecho danificado ainda não foi recuperado.
Não há data para a liberação. A Capitania dos Portos de São Paulo informa que a seguradora responsável pelo sinistro já escolheu a empresa que fará o reparo. A Transpetro, subsidiária da Petrobras e dona do navio envolvido no acidente, estima a conclusão das obras para 2027, sem indicar o mês.
A APS afirma que, à época, optou por entregar o alinhamento do cais sem o trecho do Concais e lembra que os cruzeiros dispõem de outros berços. Sobre as defensas, diz estudar uma solução viável. Quanto à altura das embarcações, sustenta que segue, junto com a Capitania dos Portos, as diretrizes de calado aéreo, e admite reavaliar o tema caso surjam novos estudos.
Competitividade do destino em jogo
Para a turismóloga Selma Cabral, especialista em planejamento estratégico do turismo, o efeito mais grave não aparece na venda de passagens, e sim na disputa por navios: as limitações afastam armadoras e reduzem a competitividade de Santos frente a outros mercados.
Ela pondera que o passageiro perde conforto no embarque e no desembarque, enquanto a operação mais complexa eleva custos logísticos. Em vez de acessar o navio diretamente, o turista encara deslocamentos internos de ônibus, o que alonga o processo e passa impressão de improviso.
A avaliação da especialista é que a viagem começa no terminal, não a bordo, e que a comparação com portos estrangeiros pesa na percepção de qualidade do destino.
Setor cobra novo terminal
Presidente da Associação dos Profissionais de Turismo da Baixada Santista (APT), Eduardo Silveira observa que o problema se repete em vários terminais, já que a frota mundial não para de crescer. Por isso, considera urgente um novo espaço para o embarque de passageiros em Santos.
Ele reconhece, porém, o papel do Concais no fortalecimento do setor e lembra que, antes da construção do terminal, embarques e desembarques eram improvisados a cada temporada em armazéns de carga, sem estrutura para o público. Um terminal novo, com acesso por finger — a passarela coberta ligada ao navio —, ampliaria a procura de turistas acostumados a essa comodidade em outros portos.
Quem viaja sente o efeito
A administradora de empresas Larissa Squillaro, de 38 anos, moradora de Ilhabela, já fez 26 cruzeiros e diz que o transporte por ônibus torna o processo menos prático, alonga o embarque e acrescenta uma etapa cansativa ao trajeto.
O designer gráfico Gabriel Netto e a publicitária Viviane Pivato, ambos de 26 anos e moradores de Bauru, relatam a mesma sensação. Segundo Gabriel, formam-se filas, o tempo até chegar ao navio aumenta e, em alguns momentos, o passageiro precisa viajar em pé no ônibus.
Larissa acrescenta que a espera cresce nos dias de maior movimento, quando três navios operam simultaneamente. Mesmo entendendo que há limitações técnicas, ela defende medidas que reduzam o tempo de deslocamento, além de comunicação mais clara e antecipada sobre o berço de atracação e a duração do trajeto interno.
Para a passageira, Santos já tem estrutura consolidada como principal porta de entrada dos cruzeiros no Brasil e, com ajustes e investimentos contínuos, pode oferecer uma experiência bem melhor da chegada ao Porto até o embarque.


