Mulheres da Terra Indígena Tenondé Porã, no extremo sul de São Paulo, transformaram a organização política de suas aldeias e ampliaram o enfrentamento à violência doméstica. O território deixou de adotar a figura única do cacique e passou a ser representado por um conselho com maioria feminina.
O processo foi liderado por mulheres como Jerá Guarani, da aldeia Kalipety. Segundo os relatos reunidos, agressões e abusos raramente eram discutidos pouco mais de uma década atrás, e denúncias feitas pelas vítimas muitas vezes eram ignoradas.
O Conselho Guarani foi criado em 2009. Após um período de transição, o último cacique deixou o cargo em 2014. Hoje, mais de 40 lideranças representam 17 aldeias, sem a concentração de poder em uma única pessoa.
A demarcação de cerca de 1.600 hectares, concluída em 2016, também foi decisiva. Antes disso, o território tinha pouco mais de 26 hectares e enfrentava superlotação, pobreza e consumo abusivo de álcool, fatores que agravavam os conflitos.
As lideranças organizaram encontros de conscientização, intervenções na casa de reza e ações de acolhimento. Em casos de agressão, o conselho pode afastar o autor e articular proteção para a vítima.
O atendimento de uma delegacia móvel reduziu barreiras para solicitar medidas protetivas sem abandonar o território. A experiência mostra como autonomia política, acesso a serviços públicos e protagonismo feminino podem atuar juntos no combate à violência.


